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  • Matheus Mans

Crítica: 'O Páramo' é terror espanhol da Netflix que poderia ter mais intensidade


Guerras e conflitos sempre abrem espaço para pesadelos. No caso de O Páramo, terror espanhol da Netflix e que chegou ao catálogo nesta quinta-feira, a violência que toma de assalto o país europeu é o motor por trás do medo. Um garotinho (Asier Flores) vive em uma cabana isolada de tudo e de todos. Ao seu lado, apenas a mãe (Inma Cuesta), preocupada com a sobrevivência.


Do lado de fora, medo. Estacas e espantalhos marcam o fim da propriedade. Para além disso, a violência que assola a Espanha no século XIX. A mãe sabe o que tem para além daquelas fronteiras. O filho, enquanto isso, trata apenas como La Bestia. É uma entidade sobrenatural que, para ele, não tem forma, não tem sentindo. Mas, afinal, o que é mesmo a violência senão isso?


Apesar de falar principalmente sobre a memória de uma criança sobre os horrores de uma guerra, lembrando até mesmo o formato de O Labirinto do Fauno, O Páramo também chega em um momento que essa narrativa consegue ir além. Nós, brasileiros, podemos facilmente colocar a história a partir do ponto de vista da própria pandemia. Solidão, inimigo invisível e por aí vai.


Há boas ideias aqui, assim como uma cinematografia interessantíssima. O trabalho de Isaac Vila coloca personalidade na história, ajudando a intensificar esse sentimento de "terra perdida". Não há dúvidas de que a ambientação tem um papel central dentro desta produção original da Netflix e que, se não fosse a fotografia, poderia se perder com uma direção pouco criativa e ousada.

Aliás, agora vamos falar sobre isso. David Casademunt, que também assina o roteiro ao lado de Martí Lucas e Fran Menchón, faz sua estreia na direção. Há algo de interessante aqui, principalmente quando o cineasta evoca tintas de A Vila, de M. Night Shyamalan. O mistério, mais do que o drama, é o que faz com que O Páramo tenha vida própria dentro dessa história.


Só que falta intensidade. E é esse o grande problema do longa-metragem: apesar das boas ideias e intenções, a produção espanhola não consegue atingir o clímax necessário. Fica nessa mistura de O Labirinto do Fauno, A Vila e Um Lugar Silencioso para nunca se decidir, de fato, como contar essa história. É um drama? É um thriller? Casademunt se confundiu no processo.


O Páramo, ainda assim, tem seu poder, sua força e seu charme: o aspecto relacionável, principalmente, que faz com que a guerra e a violência dessa história sejam entendidas de outras formas, para além da Espanha. Mas faltou ousadia. Parece que o diretor ficou confortável em seguir um caminho já trilhado por aí e que não exigia muito de seu lado, apenas coesão.


No final, fica a dúvida: qual é o público desse filme? Quem busca terror vai se decepcionar com uma carga emocional exagerada e lenta demais. Thriller? Nem pensar. O drama, enquanto isso, esbarra em maneirismos do dito "cinema de gênero". É um erro bem típico de um cineasta de primeira viagem. Só fica uma certeza: Casademunt ainda pode ter um bom futuro pela frente.

 

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