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  • Matheus Mans

Crítica: 'O Poço', da Netflix, é filme espanhol tenso, mas exagerado

Atualizado: Mar 22


A ideia de filmes que emulam a sociedade, dividindo as pessoas em níveis ou extratos fictícios, não é nova. O coreano Bong Joon-ho, em alta agora por conta de Parasita, fez isso brilhantemente em Expresso do Amanhã. A série de livros Silo fez isso com uma boa roupagem juvenil. E agora, a Netflix traz essa história com uma roupagem gore no estranho O Poço.


Dirigido pelo diretor estreante Galder Gaztelu-Urrutia, este filme espanhol acompanha a jornada de Goreng (Ivan Massagué), um homem preso num sistema vertical e separado por níveis. A grande diferença entre eles é por conta da quantidade de comida. No primeiro nível, a comida é novinha, recém-feita. No segundo, chega um pouco comida. A partir do 50, quase nada chega.


Com essa forte metáfora social, que chega ao espectador sem nenhum tipo de requinte por parte do roteiro de David Desola e Pedro Rivero, encontramos um filme de sobrevivência, com um tom tenso e com um pé forte no gore. Apesar de faltar vitalidade às cenas de ação, O Poço causa desespero por conta de algumas situações e provoca o espectador a pensar e refletir.

Massagué (O Labirinto do Fauno) encarna bem seu personagem, trazendo uma perturbação potente. No entanto, seus melhores momentos são com o estranho Trimagasi (Zorion Eguileor).


O grande ponto negativo, porém, está no exagero nas tintas de Gaztelu-Urrutia e dos roteiristas. Pouca coisa está no ponto certo. Por mais que o filme empolgue e cause tensão em alguns momentos, a violência é exagerada e ação, fraca; o prolongamento de algumas sequências geram cansaço; a fotografia é escura demais; e a metáfora se perde completamente no final.


Sao muitas metáforas, muitas interpretações. Isso até poderia deixar o filme mais saboroso e desafiador, mas deve acabar afastando a maioria das pessoas. O final sem contexto e desencaixado, com muitas lacunas em aberto e sem um único direcionamento do cineasta, cimentam essa percepção com o longa-metragem.


Faltou um pouco mais de controle ao diretor na hora de transacionar as ideias para a tela. Uma pitada a mais de coerência poderia fazer com que O Poço se tornasse uma das pérolas da Netflix este ano -- intenso, com crítica, empolgante. Mas o exagero deve perder grande parte do público, que vai se cansar da falta de controle narrativo e observara um caos passando na tela.


No final, fica uma sensação mista. O filme é bom, é interessante e dá pra assistir tranquilamente aos 90 minutos. No entanto, está longe de ser memorável. Os erros se aproximam demais dos acertos e o fato de não ser uma ideia 100% original diminui ainda mais o impacto metafórico da sociedade se comportando em situações extremas e de prejuízo ao próximo. Podia ser melhor.

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