• Matheus Mans

Crítica: 'O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos' é fábula deslumbrante


Nos últimos tempos, a Disney está numa maré de transformar produções animadas em filmes live-action. A Bela e a Fera, Cinderela e Malévola foram algumas delas. Agora, o estúdio vai num caminho perpendicular ao adaptar o espetáculo de balé O Quebra-Nozes para as telonas e, assim, tentar abocanhar uma outra parcela de público ansiosa pra ver histórias infantis em live-action mais originais. O resultado é deslumbrante e emocionante, ainda que ainda um pouco fora de tom e com um leve marasmo narrativo.

Dirigido pela dupla Joe Johnston (Jumanji, o de 1995) e Lasse Hallström (Sempre ao Seu Lado), O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos acompanha Clara (Mackenzie Foy), garota órfã de mãe que recebe uma herança misteriosa -- um ovo de metal que só abre com uma chave específica. Assim, depois de pedir conselhos para o padrinho Drosselmeyer (Morgan Freeman), ela acaba partindo para os Quatro Reinos, um local mágico e que deve ter as respostas de seus enigmas, de anseios e, principalmente, de inseguranças.

O formato geral da história, escrita pela estreante em longas Ashleigh Powell, lembra muito o de Crônicas de Nárnia e Alice no País das Maravilhas: é uma criança/adolescente que, quase sem querer, descobre a passagem para um mundo de sonhos e fantasia. Aqui, porém, nada de sátiros, chapeleiros malucos e coisas do tipo. A fantasia, baseada inteiramente no famoso balé, mostra um conflito de três reinos (comandados por Keira Knightley, Richard E. Grant e Eugenio Derbez) contra o de Helen Mirren. Clara, enquanto isso, vai ter que escolher seu lado e defender o legado da mãe.

O visual é o que mais chama a atenção. Com figurino assinado por Jenny Beavan, que deve disputar o Oscar da categoria a tapas com A Favorita em 2019, O Quebra-Nozes e Os Quatro Reinos se mostra consciente da grandiosidade de sua produção. As roupas dialogam com a personalidade de cada personagem e ajudam, inclusive, na construção geral da obra. É interessante notar referências, easter eggs e outros elementos nas roupas e visual. Outro ponto de destaque são os efeitos especiais, que criam mundos de cair o queixo. Difícil não sentir vontade de pular da poltrona e mergulhar nos cenários.

No entanto, felizmente, O Quebra-Nozes e Os Quatro Reinos vai além de um "filminho bonito". O elenco está afinado, principalmente Foy (Interestelar), Freeman (Ben-Hur), Mirren (Ella e John), Derbez (Não Aceitamos a Linguagem) e Grant (Poderia me Perdoar?). Cada um contribui, de certa maneira, aos seus papéis, por menores que sejam. Só Jayden Fowora-Knight, que faz o quebra-nozes Philip, está extremamente apático e com menos força dramática; e Keira Knightley (Orgulho & Preconceito) está exagerada na caricatura. As crianças, público-alvo, não devem se incomodar, porém.

O roteiro de Ashleigh Powell, ainda que óbvio em vários pontos, como uma reviravolta no início do terceiro ato e as reais intenções de alguns personagens, acerta no geral e agrada como adaptação. A direção de Johnston e Hallström caminha pelo mesmo caminho, sempre alinhada com as intenções gerais da trama. Só escorrega um pouco no tom geral. Em alguns momentos, o longa-metragem se torna chato para crianças e, em outras, infantil demais para alguém mais velho. Demoram a achar o jeito certo de conduzir a história, mas tudo deslancha de modo positivo quando o tom é calibrado.

O Quebra-Nozes e Os Quatro Reinos, então, é uma fábula infantil, musical e natalina que enche os olhos com lindos figurinos, cenários virtuais bem pensados, um elenco afinado e uma história inspiradora. Há problemas e o público mais velho pode se cansar da trama como um todo -- as crianças também em alguns momentos, como ressaltado. Mas é, no geral, o que a Disney sempre sabe fazer de melhor: levar uma magia delicada e inspiradora para as telonas. E isso, sem dúvidas, funcionou muito bem em O Quebra-Nozes e Os Quatro Reinos. Bom longa-metragem para entrar no clima natalino.

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