• Matheus Mans

Crítica: 'O Terceiro Assassinato' é avesso de filmes de tribunais


O Terceiro Assassinato, logo nos minutos iniciais, já deixa a mensagem de que não é um filme policial convencional. Afinal, rapidamente, o longa já deixa claro quem é o responsável pelo crime que ancora a narrativa. Pior: o próprio culpado vai à polícia se entregar. O que o espectador acompanha, como um observador que precisa aceitar seu passivo destino, é a investigação e a possível condenação, compreendendo os meandros humanos de cada envolvido.

Esse resultado poderia ser desastroso nas mãos de um diretor iniciante ou cheio de prepotências. Mas não é o caso de Hirokazu Kore-Eda, cineasta japonês que já mostrou toda sua força com os belíssimos Pais & Filhos e Nossa Irmã Mais Nova. Para ele, não importa o mistério ou a investigação policial. Aqui, o premiado diretor oriental quer mostrar, na verdade, como a justiça age, compreendendo as atitudes das pessoas e as burocracias do processo.

É, portanto, um relato metafísico que se sobrepõe ao mistério. Mistério, sim. Em determinado ponto da narrativa, o espectador é instigado a tentar descobrir a origem do crime e suas motivações. Mas isso é detalhe. A mentalidade de Misumi (Koji Yakusho) é provocada e revirada por advogados, familiares e juízes. Depois do assassinato, ele não é mais uma pessoa. É apenas um ser esperando um julgamento baseado em afirmações e convicções.

Isso acaba por criar, em O Terceiro Assassinato, um clima avesso aos filmes de investigação e tribunal. Seja em O Homem que Fazia Chover, As Duas Faces de um Crime, Tempo de Matar ou O Júri, o interesse está nos processos. Nos meandros da advocacia. Na base do direito -- mesmo que ficcional. Aqui, o foco acaba recaindo sobre ideologias, dores, destino, atitudes impensadas. A burocracia é detalhe e, por vezes, caricata: são os advogados sem saber o que fazer, a promotora perdida.

A intenção de Kore-Eda com o filme é exponenciada, ainda, com as atuações. Koji Yakusho (Babel) dá um espetáculo. Consegue mesclar sentimentos e deixa se levar completamente pelo roteiro. É um ator completo e que merece mais reconhecimento. Masaharu Fukuyama (Pais e Filhos) também está bem num tipo mais contido, mas é eclipsado pela atuação de Yakusho.

Para finalizar, o diretor Hirokazu Kore-Eda mostra que o ato de comandar um filme não é só ter bons atores e bom roteiro -- coisas que, indiscutivelmente, ele tem em tela. Mas ele também cria imagens arrebatadoras e, apesar da extrema lentidão em alguns pontos, ajudam a compôr o cenário. As conversas na cadeia, aliás, geram cenas de tirar o fôlego de tão lindas e significativas.

O Terceiro Assassinato, que já acerta no título, é um filmaço. Ainda que tenha uma lentidão exagerada, como citado, é perfeito em direção, roteiro e atuações. E só mostra que o cinema japonês merece ser apreciado além das animações.

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