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  • Matheus Mans

Crítica: 'O Último Lance' é filme emocional sobre arte e família


Olavi (Heikki Nousiainen), um velho negociante de arte, está pensando em se aposentar. E isso não é fácil pra ele. Afinal, sempre colocou os negócios na frente de tudo -- inclusive de sua filha e neto -- e mostra garra e tino comercial. No entanto, ele vê a oportunidade perfeita para fechar as cortinas quando encontra uma obra de arte sem assinatura num leilão. De traços fortes e hipnóticos, a tela parece ter História e Olavi, empenhado, decide ir atrás junto com seu neto, Otto (Amos Brotherus), que inicia um estágio na loja do avô. É o início dessa jornada rumo ao final da vida e do comércio.

Dirigido pelo talentoso finlandês Klaus Härö (O Esgrimista), O Último Lance possui um ritmo lento, contemplativo. Grande parte de seu escopo narrativo, afinal, se ancora na jornada de Olavi em busca do background do quadro histórico e, em paralelo, com a aparente necessidade de reatar laços familiares. É um filme de sentimentos, não de ação. É uma história assumidamente introspectiva. E, para isso dar certo, Härö faz valer dois pontos cruciais: as interpretações dos personagens principais e a forma que a história é contada. É difícil, ao longo de 90 minutos, não se sentir preso à trama do filme.

O primeiro destaque é Heikki Nousiainen (Cartas ao Padre Jacob). Ele entra de cabeça no papel e, apenas com olhares, consegue passar todos os sentimentos conflitantes de seu personagem. Há confusão, tristeza, euforia, preocupação. É interessante, também, a forma como ele se relaciona ao mundo das artes e do leilão -- e que lembra, em partes, o personagem de Geoffrey Rush no filme O Melhor Lance. Sorte de Härö. Se a atuação do protagonista fosse mediano, ou apenas aceitável, O Último Lance seria bem menos interessante. Nousiainen, com todo esse domínio de cena, acerta em cheio no que faz.

Em seguida, há o bom "relacionamento" entre o roteiro de Anna Heinämaa e o diretor. A parceria da dupla, que começou com o bom O Esgrimista, continua a dar bons frutos. Ainda que haja algumas elipses narrativas óbvias, como a conclusão da venda de determinado quadro e as consequências de um e-mail enviado para um museu, a maior parte da trama funciona. A história facilita o mergulho do espectador, que volta a compreender as nuances malignas do mercado da arte -- como já foi visto, em 2019, com Minha Obra-Prima e Velvet Buzzsaw. DIfícil não comprar o lado do protagonista.

Pena, porém, que algumas subtramas não sejam exploradas ao máximo, como o relacionamento pregresso com a filha, bem interpretada por Pirjo Lonka (Häiriötekijä). É coisa que um diálogo, uma rápida cena, resolver. Nada demais num filme de 90 minutos.

Ainda assim, o salto final é positivo. O Último Lance é uma daquelas pérolas escondidas, que estreiam em silêncio, mas que mereciam bem mais atenção do público e crítica. Inicialmente, parece não ter muito a dizer, divagando no mundo da arte e dos leilões. Mas é, afinal de contas, um longa-metragem humano, repleto de bons momentos e de bons personagens. Quem gosta de arte, sem dúvidas, vai se interessar pela história de Olavi e de Otto. Personagens simples, humanos, e que cativam por isso. Bom filme.