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  • Matheus Mans

Crítica: 'Os 7 de Chicago' é filme arrebatador da Netflix


Os chamados "filmes de tribunal" já fazem parte da base do cinema mundial, assim como ajudaram a construir um imaginário ao redor da Justiça. São obras como Doze Homens e Uma Sentença, O Sol é Para Todos e, até mesmo, Advogado do Diabo. Agora, a Netflix revisita e dá frescor ao gênero com o poderoso e necessário Os 7 de Chicago, novo filme de Aaron Sorkin.


Sobre o que é o filme?


O longa-metragem, que é baseado em uma história real dos Estados Unidos nos anos 1960, conta a história de grupos de esquerda que decidem protestar em Chicago. O motivo? Em um momento em que a Guerra do Vietnã está matando milhares e o Partido Republicano escolhe Nixon como seu representante nas eleições, os Democratas optam por um candidato ruim.


É por isso que esses grupos, liderados pelos personagens de Eddie Redmayne, Alex Sharp, Sacha Baron Cohen, Jeremy Strong, John Carroll Lynch, Yahya Abdul-Mateen II, Ben Shenkman e Danny Flaherty, querem fazer barulho. Na sede dos Democratas, em Chicago, querem tentar mudar o rumo do partido nas eleições e, assim, buscar um futuro melhor para os EUA.

No entanto, obviamente, as coisas não saem como o esperado, a polícia acaba agindo de maneira violenta e, como sempre, quem está protestando é punido. Mais especificamente, os oito líderes -- que viriam a se tornar sete, por conta da exclusão de um deles -- são processados pelo Estado com as acusações de causar tumulto, formar quadrilha e outras coisas absurdas.


'Os 7 de Chicago' é um bom filme?


Enfim: este é um longa calcado quase que totalmente na história do tribunal. As cenas fora dali, geralmente mostrando os protestos em si, acabam sendo apenas flashbacks para dar sustentação à trama e trazer certa dinamicidade. Sobre a dinâmica do filme, aliás, Sorkin (de A Grande Jogada) acaba apostando numa edição ao estilo Adam McKay para fugir da mesmice.


O foco de Os 7 de Chicago, afinal, é o tribunal em si e todas as suas possibilidades, simbolismos e representações. A figura do juiz autoritário e partidário (Frank Langella, num dos papéis mais interessantes de sua carreira) acaba extrapolando apenas o sentido daquela história e transborda para outras compreensões. Sorkin, espertamente, não nos dá refúgio ou escapes.


Acaba sendo uma mistura inteligente entre o clima claustrofóbico e fechado de Doze Homens e uma Sentença, com a força política de Mississipi em Chamas ou até mesmo O Sol é Para Todos.


Afinal, estamos presos como sociedade dentro daquelas mesmas paredes. Tudo bem: a pauta mudou, o mundo mudou, as perucas... quer dizer, os penteados mudaram. Mas será que mudamos tanto assim? A perseguição à grupos de esquerda ou que protestam continuam sendo uma frequente por aí, inclusive no Brasil. E julgamentos políticos são cada vez mais reais.

Assim, fica rapidamente muito claro que este é o objetivo de Sorkin. Ele, que continua sendo um melhor roteirista do que diretor, vale ressaltar, acerta em cheio ao trazer essa ressignificação moderna da trama, de maneira implícita, apenas na forma de filmar ou conduzir a trama. Tudo ali se torna urgente. A cena da mordaça, principalmente, é um soco no estômago. Real, dura.


Existem problemas, claro. Há um didatismo insistente, ainda que concentrado principalmente no personagem do advogado de defesa (Mark Rylance, numa atuação brilhante). Além disso, o cineasta se vale de algumas liberdades artísticas para mudar a história, principalmente quanto à personalidade de alguns dos personagens e um pouco de como o tribunal lidou com o caso.


Vale a pena assistir?


Por fim, podemos concluir que Os 7 de Chicago é um filme que merece ser assistido não só por conta de sua mensagem atual e relevante, como também por sua qualidade. Não é perfeito, mas tem momentos inspirados e, principalmente, atores entregando atuações marcantes. Redmayne, por exemplo, faz sua primeira atuação de "cara limpa" após muitos anos. Está muito, muito bem.


Mas os destaques acabam ficando concentrados em três nomes: Langella, Rylance e Sacha Baron Cohen. O primeiro, que faz o juiz, está potente em cena e consegue transmitir todo o seu autoritarismo. Uma pancada. Rylance está tão bem quanto em Ponte de Espiões, filme que lhe rendeu o Oscar. E Cohen é o alívio cômico que traz alguns momentos realmente marcantes.


Enfim, grandes atores em um grande filme com reais chances de Oscar. Mas fica o aviso: se você não gosta de filmes de tribunais, talvez seja bom pensar bem antes de dar o play nas mais de duas horas de projeção. Não há muito além das mesas do juiz e dos jurados, acabando por fazer com que o longa-metragem seja mais restrito. É preciso embarcar na ideia e no ambiente.


Ainda assim, de qualquer maneira, fica aqui o destaque. Os 7 de Chicago é um filme necessário, moderno, relevante, potente. Tem seus problemas e revela algumas fragilidades de Sorkin como cineasta. No entanto, no final das contas, acaba tendo mais pontos positivos do que negativos, coroando o longa como um dos mais interessantes de 2021. Vale a assistida na Netflix.

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