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  • Foto do escritorMatheus Mans

Crítica: 'Pacificado' traz olhar inédito para a favela, mas poderia ir além


Confesso que lá na metade de Pacificado, comecei a imaginar que o filme seria um dos grandes de 2022. Afinal, esta produção dirigida pelo americano Paxton Winters conta brilhantemente a história de Tati (Cassia Gil), uma garota que vive sob tensão em uma comunidade no Rio de Janeiro. A mãe (Débora Nascimento) é viciada em drogas, enquanto o pai (Bukassa Kabengele) era o chefão do morro até sua prisão. Agora, em liberdade, fica a pergunta: ele voltará ao poder?


Com o cenário da pacificação do morro entrando em xeque com o fim das Olimpíadas de 2016, o longa-metragem vai mostrando essa realidade se abatendo sobre a personagem. É uma história como realmente existe por aí. São várias Tatis não apenas no Rio, como também em São Paulo, Belo Horizonte e por aí vai. Paxton, apesar de ser americano, entende isso com uma naturalidade louvável. Percebe-se que ele realmente estudou para fazer o filme como deve.


No elenco, enquanto isso, realmente não há pontas soltas. Cassia Gil surpreende com o seu primeiro papel em um longa, levando complexidade à personagem com brincadeiras de gestos, olhares, entonações. No entanto, quem realmente rouba a cena é a dupla Nascimento e Kabengele. Eles já tinham mostrado a força de suas interpretações em Além do Homem e Atrás da Sombra, respectivamente, mas aqui se entregam de vez. São dois grandes, dois gigantes.

Pacificado, além disso, também conta com um realismo cru adotado por Paxton. A cena de Bukassa subindo uma imensa escadaria com a geladeira nas costas é uma das melhores sequências do ano -- é forte, real, sem firulas. No universo do favela movie, que ganhou força no Brasil depois de Cidade de Deus, é um acerto e tanto. Mesma coisa de Alemão 2, que recentemente fez um cinema de ação certeiro, bem ao contrário do visto no primeiro filme.


Passado isso, porém, voltamos à primeira afirmação do texto. Lá pela metade, tudo isso estava indo muito bem. Imaginava que seria um dos filmes do ano. O que causou essa nota abaixo, então? O problema é que Paxton foca tanto na realidade que esquece de outros detalhes essenciais em um filme como esse. A trama fica um pouco líquida demais, quase inexistente, focada demais em ser cru e real. Parece que esquecem de desenvolver a história.


O resultado disso é um final apressado, em que muita coisa acontece. Há uma revelação fortíssima e inesperada de Tati, uma conclusão trágica de um personagem, movimentações no morro. É uma explosão de acontecimentos narrativos que incha o filme e que mostra como isso poderia ter sido espalhado pela trama. Uma pena. Ainda assim, Pacificado é um bom filme. Cru, real, forte, reflexivo. É o favela movie que o cinema brasileiro precisa e merece hoje em dia.

 

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