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  • Matheus Mans

Crítica: 'Pai Nosso?' é documentário chocante e repetitivo da Netflix


Uma mulher vai até o consultório de um médico, especializado em fertilidade, para passar por um procedimento de inseminação com sêmen. O médico, um senhor mais velho respeitado da comunidade, pede licença para buscar a amostra. Fica 10, 15 ou 20 minutos fora até voltar com o potinho com o sêmen. Corta. Passaram-se anos, décadas. A filha dessa mulher quer descobrir se tem irmãos perdidos por aí. Até que descobre que o médico, Donald Cline, é seu pai biológico.


Essa é a trama do chocante documentário Pai Nosso?, produzido por Jason Blum e que chegou ao catálogo da Netflix nesta quinta-feira, 11. Dirigido por Lucie Jourdan, o longa-metragem acompanha o relato de parte dos mais de 90 (!!) filhos do médico, sempre frutos do processo de inseminação artificial criminoso. Ao invés do sêmen de doadores, afinal, Donald Cline se masturbava no consultório e, depois, usava o próprio sêmen para fertilizar essas mulheres.


Com relatos de filhos, mães e pais, Pai Nosso? busca fazer um relato aprofundado e completo do que aconteceu com essas pessoas, com Cline e como a Justiça recebeu as acusações de estupro perpetuadas pelas famílias afetadas. É uma história forte e que traz desdobramentos desconcertantes, como a possibilidade desses meios-irmãos se casarem ou terem relações sem saberem o laço biológico. É como se Meus 533 Filhos virasse uma história real e assustadora.


Passado o assombro com a história, porém, não sobra muito de Pai Nosso?. O filme anda em círculos em muitos momentos, repetindo as mesmas histórias. Parece que não sai do lugar, mesmo com os momentos ficcionais ajudando a encaixar um ritmo mais interessante aqui e ali. Outro ponto de incômodo está no foco da história: Jourdan se debruça mais nos filhos do que nas mães, que foram as pessoas que realmente foram abusadas dentro de um consultório.


Com isso, Pai Nosso? é um documentário que choca no início, mas que vai perdendo sua força e sua vitalidade com uma história que anda em círculos. Difícil encontrar uma solução para uma trama que, realmente, não possui outros pontos de apoio. Mas talvez o efeito chocante da coisa se sustentasse por mais tempo sendo um episódio de série, por exemplo. O que fica de bom é o caráter de denúncia da coisa, finalmente colocando Clive no papel (e situação) que merecia.

 

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