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  • Matheus Mans

Crítica: 'Pelas Ruas de Paris' é filme experimental prepotente da Netflix


O início de Pelas Ruas de Paris é promissor. Numa mistura estética e narrativa de Terrence Malick com Richard Linklater, o longa-metragem parece entrar numa seara onírica para contar a história de um casal (Noémie Schmidt e Grégoire Isvarine) que se conhece numa balada e, a partir daí, começa a tecer um relacionamento repleto das problemáticas modernas do amor -- o cara chamando a namorada de louca, dinheiro vs. vontade própria, onde morar, quais músicas escutar e algumas outras bobagens assim.

No entanto, o que começa bem, aos poucos vai descambando para um drama pretensioso, sem pé nem cabeça, que só serve para causar desconforto, enjoo e um forte desespero para que o filme termine logo. Afinal, ainda que use de uma linda fotografia e faça um zoom interessante na pele e nas texturas dos protagonistas, a diretora estreante Elisabeth Vogler parece não saber domar essas pretensões iniciais. O roteiro deixa de ser instigante para ser chato, vazio. O experimentalismo transborda.

Não que Pelas Ruas de Paris não tenha seus méritos. Vogler já começa bem, apostando numa narrativa diluída e nesse visual experimental que Malick tanto adora colocar em seus filmes. A diferença, porém, é que o diretor de A Árvore da Vida avança na narrativa a cada cena -- por mais estranho e metafórica que ela seja. O roteiro, escrito a surpreendentes quatro mãos (Rémi Bassaler, Paul Saïsset, Souliman Schelfout e a própria Vogler) é um fiapo. Um ornamento em algo que foca apenas no visual geral dali.

Isso, por mais bonito que seja o experimentalismo visual da coisa, faz com que o longa-metragem original da Netflix perca muito em qualidade. É como dizem: o filme tem 1h24, mas se você dormir duas horas, ainda vai ter meia hora de filme sobrando. O tempo não passa, as coisas parecem não avançar. A protagonista vive um dilema existencial interessante, mas que não chega no ponto esperado. Fica apenas boiando nessa enchente de conteúdo visual rodopiante e colorida. Pra que tudo isso?

Tudo bem que a ousadia da diretora conta pontos -- não é à toa a nota abaixo, que considera bastante essa originalidade pulsante de Vogler. Mas, ainda assim, a coisa tem que fazer sentido. De novo, nos voltemos à Árvore da Vida. Por mais que o filme tenha aquela maluquice de dinossauros e outras coisas, ele tem um propósito firme e, quem o assistir, vai conseguir pelo menos identificar sua sombra. Aqui, nem isso. Tudo é rasteiro, barato. O roteiro, sem dúvidas, poderia ter aprofundado. Faltou Linklater aqui

Enfim. Pelas Ruas de Paris é um filme original, interessante e que exala criatividade. Mas é aquilo. Não adianta revolucionar a roda se o novo produto não é tão eficaz quanto o tradicional. Aqui, a mensagem não chega. E qual o propósito de um filme a não ser fazer pensar, refletir, se emocionar? Nada disso acontece. É um vazio experimental.