Buscar
  • Matheus Mans

Crítica: 'Peterloo' é épico sem alma e sem grandiosidade


Era 1819. O mundo havia acabado de ver a derrocada de Napoleão na histórica batalha de Waterloo quando cidades ao norte do Reino Unido começaram a revolta. Instigados por um espírito nacionalista, foram às ruas pedir seus direitos. Queriam votar, queriam ser ouvidos. No entanto, a democracia não estava soprando para o mesmo lado e, quase sem aviso, essas revoltas foram massacradas. A maior delas, em Manchester, tomou proporções fascistas. E passou a ser chamada pelos jornais de Massacre de Peterloo.

É em cima disso que se constrói a narrativa de Peterloo, novo épico de Mike Leigh (Segredos e Mentiras, Sr. Turner), e que chega aos cinemas nesta quinta, 12. Difícil compreender, num primeiro momento, o motivo de tal evento histórico nunca ter sido retratado nos cinemas. Afinal, é algo grandioso, que precisa ser lembrado e que desperta aquele senso de humanidade clássico em filmes de guerra -- lembre de Coração Valente e o discurso de William Wallace, por exemplo. Algo que existe aqui.

No entanto, conforme o filme avança, fica claro o porquê de cineastas terem corrido da trama. Não é fácil colocá-la nas telonas. E Leigh, mesmo sendo um diretor muito experiente, apresenta falhas estruturais que fazem com que o longa-metragem se torne um espetáculo épico sem alma, sem graça e pouquíssimo memorável. Um feito digno de nota, já que é uma história interessante e que parecia pronta para o cinema, desde o início. Mas, talvez aí que more a armadilha. Não dá para conduzi-la sem personalidade.

Leigh, por exemplo, opta por seguir com o filme como se fosse uma espécie de Dunkirk. Deixa a revolta que dá nome ao filme conduzir as coisas, sem protagonistas definidos. No entanto, aos poucos, isso vai expondo as fragilidade mais notórias de Peterloo. O dinheiro não é o bastante para trazer efeitos especiais retumbantes. A cena do massacre, esperada desde o começo, é um espetáculo patético. Leigh não sabe dirigir a violência dos soldados e as mortes chegam a parecer um artifício qualquer de teatro.

Não há identificação, também, com o elenco. Dunkirk, por mais que seja fragmentado, possui personagens-chave que elevam o tom da narrativa e trocam experiências, tornando-os mais humanos. Aqui, enquanto isso, há personagens que vêm e vão, sem muita explicação ou cerimônia. Quando alguém é morto, há apenas uma pontada natural de injustiça. Não há revolta com o que está sendo assistido, não há o sentimento de que um massacre social está sendo cometido -- algo que Nolan soube criar em seu Dunkirk.

Até As Sufragistas, longa-metragem que lembra um pouco Peterloo em seu clima histórico -- 100 anos depois do retratado em Peterloo -- e exigências sociais, soube navegar por águas mais inteligentes. E olha que, ainda assim, não é um grande filme.

Falta para Leigh experiência no gênero de guerra. Mais do que copiar essa narrativa vista recentemente num filme premiado, o cineasta britânico deveria ter imprimido um ritmo própria. Talvez um relato não-linear dos acontecimentos. Ou, ainda, brincar com gêneros, formatos. Ou, se quisesse abraçar de vez o épico de guerra, amplificar a importância de algum dos personagens, como William Wallace. Isso desperta sentimentos na audiência que elevam o longa-metragem para um outro patamar.

Ainda que o figurino, os cenários e a reconstrução de época sejam interessantíssimas, nada mais desperta curiosidade. A emoção é soterrada por uma série de burocracias cinematográficas que só ajudam a diminuir o tesão com a história. Quando a batalha enfim transcorre na tela, depois de 2h10 de projeção, o público já está cansado, insatisfeito, desiludido. Algo que poderia ser grandioso, e ainda ter ecos em tempos atuais, se perde nessa série de sequências mal realizadas. Oportunidade perdida.

Peterloo é uma tentativa de épico que não passa de um documentário ficcionalizado chato, burocrático e sem alma. A curiosidade, ao final, é pensar em como seria este longa-metragem nas mãos de diretores como Nolan e Mel Gibson. Faltou personalidade, faltou cuidado, faltou a compreensão do que é de como esta história se desenrolou ao decorrer dos anos. É um filme parado no tempo, que deve agradar uma meia dúzia de pessoas ao redor do mundo. Pra nós, infelizmente, faltou. 154 minutos de tédio.

0 comentário