• Matheus Mans

Crítica: ‘Pieces of a Woman’, da Netflix, é filme arrebatador com Vanessa Kirby


Se havia dúvidas que 2020 teria força de produzir filmes bons, Pieces of a Woman sana esses questionamentos de uma vez. Afinal, este longa exibido no Festival de Toronto é tudo que poderia ser. É delicado, é sensível, é terno, é triste, é forte. Tudo isso com poderosas atuações de Vanessa Kirby (The Crown) e Ellen Burstyn (Réquiem para um Sonho). 


Mas vamos com calma. Ou melhor, por partes. Dirigido por Kornél Mundruczó (do mediano Deus Branco) e roteirizado por Kata Wéber, o longa-metragem acompanha a história de uma mulher grávida (Kirby), prestes a dar à luz. No entanto, rapidamente, a coisa se agrava e o bebê, no colo da mãe e sob olhar atento do pai (Shia LaBeouf), morre repentinamente.


Assim, depois de um longo plano-sequência de quase 30 minutos mostrando o parto, o espectador começa a mergulhar na dor dessa mulher. Afinal, como lidar com tal perda?



Kirby se mostra como uma das grandes atrizes de sua geração. Sabe sofrer em silêncio, mas também sabe externar sua dor em sequências dolorosas -- uma especialmente, envolvendo a mãe (Burstyn), é espetacular. O contraste com o personagem de LaBeouf (Transformers), mais explosivo e inconsequente, também ajuda a dar o tom do filme.


Vale ressaltar, também, como a roteirista Kata Wéber (também de Deus Branco) é essencial para o longa-metragem. Afinal, já que o diretor é homem, era mais do que necessário o olhar feminino sobre essa outra mulher sofrendo. Mundruczó, é claro, sabe conduzir a trama como ninguém, com lindas sequências. Mas tudo se resume à boa abordagem de Wéber.


No final, difícil não sentir uma mistura de aperto no coração, esperança, dor, sofrimento. Afinal, essa mistura de História de um Casamento com Manchester à Beira-Mar é daqueles filmes que ficam impregnados em nossa memória, nossa alma, nosso sentimento. Partilhamos da dor dos personagens e, com isso, de alguma forma, evoluímos juntos.


E tenho dito: Kirby e Burstyn não foram indicadas em Melhor Atriz e Atriz Coadjuvante, não há justiça no mundo. Ambas estão potentes em tela e merecem o reconhecimento. Assim como o restante do filme, claro. Pieces of a Woman, afinal, é uma das grandes produções do ano. Real, crua, dolorosa, sentimental. Vai mexer com os corações de muita gente.