• Matheus Mans

Crítica: 'Poesia sem Fim' leva lirismo do poema ao cinema


O cinema tem uma relação muito próxima com outras artes, como a fotografia, a música e a literatura, é claro. A sétima arte, afinal, é uma mistura de todas as outras, resultando em um conjunto de técnicas e experimentações sensoriais. Agora, um novo filme tenta transformar todas artes em poemas: o longa Poesia sem Fim, do cineasta Alejandro Jodorowsky, chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 6, trabalhando com o surrealismo e, como o título já diz, com “poesia sem fim”.

O lirismo da poesia já surge na história do longa-metragem de Jodorowsky, descrito por ele como uma autobiografia. Na trama, acompanhamos o jovem cineasta enfrentando as dores do autoconhecimento. Na tela, vemos um rapaz perturbado, que tenta agradar seu pai -- um vendedor reacionário -- mas que não quer saber de dinheiro, de negócios e, muito menos, da guerra que assola o mundo. Ele só quer experimentar a vida, em todos os seus sentidos, e ser um poeta, livre pelo mundo.

Para não ser uma autobiografia qualquer, Jodorowsky insere os elementos surrealistas que permeiam toda a sua obra. Suas personagens parecem retiradas de versos do poeta Murilo Mendes ou, até mesmo, de romances de Gabriel García Márquez. Impossível não lembrar do livro Cem Anos de Solidão ao se deparar com a mãe que só fala cantando ou com uma bailarina que só anda na ponta do pé. São pequenos detalhes que engrandecem a obra e a destacam na maré de filmes que chegam todos os meses.

Jodorowsky, porém, não se contenta em colocar poesia apenas no visual de sua biografia cinematográfica. Há poesia por todos os lados. A trilha sonora é lírica, sensível, delicada. Há um cuidado em cada verso executado, deixando toda a história mais fluida e imersiva à quem assiste. Os cenários e os figurinos, por vezes deslumbrantes e grandiosos, também remetem ao surrealismo de cenas, situações e personagens -- e que lembra a novela global Saramandaia, que criou a cidade fictícia de mesmo nome.

Por fim, destaque para as atuações do elenco principal, que consegue levar o filme com a seriedade que o surrealismo necessita -- afinal, se as interpretações fossem escrachadas, o filme seria uma comédia. Destaque para Adan Jodorowsky, que interpreta o cineasta em idade adolescente. Com uma mistura de desdém com olhos sonhadores, o rapaz consegue passar a ideia do que a personagem precisa, causando uma rápida identificação com todos espectadores.

Pena, porém, que o filme se perde em sua metade, quando é inserida uma personagem que não leva à nada. Há exageros linguísticos e a personagem não convence. Dentro daquele ambiente surrealista, até mesmo ela destoa e parece fora de ordem. Além disso, o roteiro acaba se alongando em pontos desnecessários e que acabam causando desespero para o espectador em meio aos 128 minutos de projeção. Faltou um cuidado maior na edição para que o filme não perdesse o ritmo.

A metade e o final, porém, não são ruins em todas suas formas. Há de se parabenizar o diretor por algumas boas sacadas. A personagem citada acima, por exemplo, é interpretada pela mesma atriz que faz a mãe de Jodorowsky. No final, o jovem poeta acaba dormindo com a figura materna -- ainda que inconscientemente. E o final sem um desfecho pode até irritar alguns, mas é a conclusão que o longa necessitava, fazendo com que o ingresso valha a pena. Afinal, como disse Vinicius de Moraes: “o poeta não tem fim.”

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