• Matheus Mans

Crítica: 'Polar', da Netflix, é filme de ação exótico e enérgico


John Wick, excelente filme de ação com Keanu Reeves, inaugurou uma nova modalidade do gênero em 2014. Nela, a violência não é poupada dos espectadores, a exuberância fica à flor da pele e parece não haver limites. É algo muito parecido com o que Tarantino fez em Cães de Aluguel e Kill Bill, por exemplo, mas de maneira mais divertida e voltada unicamente ao entretenimento do "tiro, porrada e bomba". E depois do longa com Reeves, também apareceu Atômica, com Charlize Theron, pra consolidar esse tal estilo.

Agora, a Netflix faz a sua aposta nesse sentido com o divertido e exuberante Polar. Estrelado pelo ótimo Mads Mikkelsen, o longa-metragem conta a história de um matador de aluguel que está se aposentando e que aguarda o recebimento de dividendos por parte de seu antigo chefe, o estranho Blut (Matt Lucas). No entanto, não há intenções de realizar o tal pagamento. O plano do magnata é matar seu antigo funcionário e, assim, aumentar o dinheiro em caixa da empresa. Para isso, ele contará com a ajuda de um estranho grupo de matadores jovens e sem medo do antigo colega.

A trama, escrita por Jayson Rothwell (Natal Sangrento), está longe de ser complexa quanto Atômica, por exemplo. É um longa de ação que, logo nos minutos iniciais, deixa o seu objetivo claro e não foge muito disso. Quando se arrisca, não dá muito certo -- como no momento em que o filme tenta uma reviravolta nos minutos finais, mas que já estava clara desde o segundo ato. É, enfim, uma história para entretenimento puro, sem grandes momentos de história. Quem busca algo assim, sem dúvida, vai se decepcionar.

O grande ponto à favor da produção está no seu design e na forma que o diretor cria seu próprio estilo. Tudo ali é estranho, beirando o bizarro, mas funciona muito bem dentro daquele universo -- algo que Mad Max fez muito bem recentemente. A maioria dos personagens possui toques pouco convencionais, seja na roupa, na fala, na maquiagem, na forma de agir. É algo que, em um primeiro instante, pode causar forte distanciamento. Mas que, aos poucos, vai ajudando a criar todo um clima para o filme.

Parte desse estilo vem da experiência do cineasta Jonas Åkerlund com clipes -- trabalho que ele faz desde 1988. Esta é suia base criativa, sendo a ficção apenas uma espécie de hobbie. Desde então, suas únicas empreitadas em longas foram com o divertido e estranho Spun, o fraco Os Cavaleiros do Apocalipse, o divertidíssimo Inquilino Desajeitado e, mais recentemente, o bom horror Lords of Chaos. E apesar dos poucos trabalhos, Polar parece uma interessante mistura de toda essa experiência de Åkerlund. Há humor negro, há cenas estilo videoclipe, há uma câmera frenética, há coreografia.

O elenco, felizmente, responde à altura do que o cineasta busca fazer em seu quinto longa-metragem. Mikkelsen (A Caça), como sempre, sabe entrar no personagem. Vale cada segundo do ator em cena. Vanessa Hudgens (High School Musical) está surpreendente como uma vizinha estranha e traumatizada do protagonista. Vai ser interessante vê-la na possível sequência. E, por fim, o antagonismo do longa é muito bem defendido por Matt Lucas (Alice no País das Maravilhas). Estranho como deveria ser. Destaque também para Ruby O. Fee, Katheryn Winnick e, claro, Richard Dreyfuss.

A única coisa que decepciona um pouco são as sequências de ação. Ainda que bem coreografadas e com um Mads Mikkelsen entregue, há muita câmera tremida, cortes rápidos e coisas do tipo. Seria mais interessante se Åkerlund tivesse investido um ou outro momento para criar cenas complexas, com planos sequência e câmera parada. Teria valorizado mais a ação e deixado o ritmo mais frenético. Mas, ainda assim, são boas cenas, que devem agradar fãs do gênero que buscam algo verdadeiramente raiz.

Vale ressaltar a boa trilha sonora e os bons efeitos, que correspondem. Há também uma boa sacada de roteiro no início, que sacaneia John Wick. Desnecessário, mas divertido.

Assim, Polar é entretenimento visual puro. Cheio de cenas de ação exuberantes e personagens estranhos, o longa-metragem acerta ao deixar o diretor firmar um estilo e conduzi-lo ao longo de toda a narrativa. Nem todos vão gostar, é claro. Muitos vão achar exagerado demais, bizarro em excesso. É destinado para quem já abraçou o subgênero da ação neon -- cheia de cores, música, cenas frenéticas e coisas do tipo. Quem gosta, não vai desgrudar da tela e, sem dúvidas, vai ficar ansioso pela possível continuação.

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