• Matheus Mans

Crítica: 'Por Lugares Incríveis' é filme irresponsável da Netflix


Antes de tudo, é bom deixar claro: gosto do livro Por Lugares Incríveis, de Jennifer Niven. A autora soube construir uma história simpática, e emocionante, sobre duas pessoas com problemas pessoais graves e que se apoiam mutualmente. No entanto, durante a leitura, dá para sentir pontadas de um romance abusivo entre o impulsivo Finch e a emocional Violet.


Essa questão no relacionamento dos dois só é resolvida graças ao bom desenvolvimento da psiquê do rapaz, que vai ganhando profundidade aos poucos e mostrando suas razões de ser.


E isso, infelizmente, não se repete na irresponsável adaptação que estreou na Netflix nesta sexta-feira, 28. Dirigido por Brett Haley (do bonitinho Coração Batendo Alto), o longa homônimo tenta reproduzir a boa química dos personagens Finch (Justice Smith) e Violet (Elle Fanning), como visto nas páginas. Ela está em luto profundo. Ele tenta lidar com um bullying agressivo.


Tendo em comum essas dificuldades, eles acabam se encontrando. Se conhecendo mais. A dor de um é a cura da dor de outro. E vice-versa. É o típico romance adolescente a la John Green.


O grande problema daqui, e já fazendo um paralelo com o livro de Niven, é que o personagem de Finch é desenvolvido quase nada ao longo de 1h20 de projeção. Seu personagem é usado por Haley e pelas roteiristas -- Liz Hannah (Casal Improvável) e a própria Niven -- apenas como um tipo de suporte à Violet. Pouquíssimo se sabe sobre o que ele passa, o que sofre, o que sente.


Seu personagem, no filme, é apenas um suporte para que Violet evolua, saia de seu luto profundo. Não há, até esse ponto citado, uma profundidade emocional ou psicológica de Finch.

E aí já começam a ter os primeiros sinais de relacionamento abusivo: Finch, o tempo todo, força Violet a fazer coisas que não quer ou que não está pronta. Algumas até são válidas, como a realização da atividade da escola, mas outras são absolutamente desconfortáveis, como o drama armado pelo rapaz para obrigar que a menina entre em seu carro pra uma breve viagem.


As coisas se complicam ainda mais, porém, quando Finch começa a demonstrar seus problemas sem se importar com Violet. Ele fica horas ou dias sem respondê-la, fica submerso na água por minutos... E parece que ele nunca está pensando nela de fato. A menina acabou de perder a irmã num acidente grave. Essa é a melhor forma de lidar com alguém nesse estado?


Finch, no filme, é irresponsável, irritante, desnecessário. Com uma atuação mediana do péssimo Justice Smith (Jurassic World), falta o desenvolvimento que existe no filme para também entender sua dor e seu sofrimento. Parece que Hannah e Niven quiseram deixar essa questão como reviravolta, lá nos 20 minutos finais. Mas aí já não adianta mais. O filme está todo errado.


A única coisa realmente boa de Por Lugares Incríveis é Elle Fanning (Malévola). A atriz, como sempre, sabe dar uma dose encanto à sua personagem, mesmo em situação desfavoráveis.


E o final? É um absurdo. Disseram que a Netflix foi irresponsável com a cena de suicídio em 13 Reasons Why. Acho aqui a situação pior: vivemos uma epidemia de suicídio entre adolescentes em todo mundo. Tratar esse assunto de maneira leviana, como é feito aqui, é difícil de entender. E, é claro: as cenas finais cristalizam de vez a sensação já citada de relacionamento abusivo.


Em resumo: Por Lugares Incríveis é um filme irresponsável, mal escrito, problemático. Sua mensagem chega de maneira torta e não há compensação alguma no final. Essa história, que fará adolescentes suspirarem por aí, deveria vir com alertas de conteúdo sensível -- pra dizer o mínimo. Difícil entender como um livro tão simpático e emocionante descambou pra isso.

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