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  • Matheus Mans

Crítica: 'Prazer, Camaradas!' é documentário diferenciado e cansativo


Em 1975, depois da Revolução dos Cravos em Portugal, muitos estrangeiros e portugueses do norte vão para a região central do país para ajudar nas recém-formadas cooperativas. Neste momento, acontece um choque social: as visões progressistas dessas pessoas, no campo sexual e dos costumes, entram em rota de conflito com os comportamentos dos moradores locais.


Em Prazer, Camaradas!, entendemos melhor o que aconteceu nesse período e como eram formados as tais cooperativas. Para isso, o diretor e roteirista José Filipe Costa opta por um caminho pouco óbvio: criar uma espécie de cápsula do tempo. Ele chama essas pessoas que participaram desse movimento, nos anos 1970, para reencenarem acontecimentos de antes.


Ou seja: na tela, vemos pessoas já idosas, na casa dos 60, 70 e até 80 anos. Mas, na prática, eles falam como se tivesse 18, 20 ou 30. Essa estranheza, que no começo até dificulta a imersão completa do público, logo vai criando uma poesia documental raríssima. É bonito ver como essas pessoas envelheceram e como participaram de um processo social profundo em Portugal.

Tem até um quê de de Libelu, excepcional documentário brasileiro sobre um movimento estudantil que nasceu durante a Ditadura Militar. A diferença é que, no nacional, vemos as mudanças nessas figuras políticas necessárias na História de maneira teórica, reflexiva. Já nesta produção portuguesa, Costa aposta mais nas diferenças visuais, nesse estranhamento.


No entanto, apesar da graça e da importância de uma narrativa como essa, Prazer, Camaradas! tem lá seus problemas. Primeiramente, o ritmo é deficiente. O cineasta e roteirista se demora demais em algumas situações, em alguns personagens, deixando tudo lento demais. Faltou mais destreza na hora de colocar isso na tela e, principalmente, no momento final da edição.


Também fica a dúvida se essa "cápsula do tempo" não deveria ser um complemento e não a linha principal do documentário. Afinal, causa um estranhamento no começo, depois vem o sopro da originalidade e, enfim, surge o cansaço dessa artificialidade da cena -- ainda que os atores/entrevistados se esforcem e se saiam muito bem na proposta do documentário.


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