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  • Matheus Mans

Crítica: 'Quem com Ferro Fere', da Netflix, é bom drama sobre vingança e redenção

Atualizado: Jan 17


Nada de zumbis, assombrações e coisas do tipo. O novo filme do cineasta espanhol Paco Plaza (REC), Quem com Ferro Fere, traz o suspense, o horror e o drama a partir de uma situação exageradamente mundana: um enfermeiro de uma casa de repouso que passa a ter um dilema em sua profissão ao ter cuidar de um idoso traficante intimamente ligado ao seu passado.


A partir daí, Mario (Luis Tosar) -- o enfermeiro -- viverá uma vida que está sempre a um passo de cair na loucura e no exagero. Será que suas decisões estão corretas? É o certo a se fazer?


Assim, Quem com Ferro Fere, que chegou no catálogo brasileiro da Netflix nesta quarta-feira, 15, parte dessa situação entre enfermeiro-paciente para discursar sobre vingança, redenção, culpa e outras coisas do tipo. O horror, típico do cinema de Plaza, está no mundo das ideias, das percepções e das sensações para chegar em algo além, uma discussão que traz novidades.


É algo que não é novidade no cinema -- o recente Euforia, por exemplo, fez da relação enfermeiro-paciente um excelente horror --, mas que tem aspectos interessantes. O drama, ao contrário do que espera no cinema de Plaza, ganha mais camadas e se aprofunda conforme o tempo passa. O realismo da situação, imerso nessa poça de horror, acaba tomando conta.


Lembra, de certa forma, o cinema dos brasileiros Juliana Rojas e Marco Dutra, como Trabalhar Cansa e As Boas Maneiras. O horror está mais próximo do cotidiano do que nós esperamos.

Há de se observar, porém, que Plaza se vale de uma estética que evoca os elementos do terror. Por vezes, usa a câmera grande angular para causar desconforto na cena, assim como tons escuros e objetos e cenas que despertam estranhamento e repulsa -- até mesmo os dedos dos pés são curvados, amarelados, estranhos. É uma ambientação própria do cineasta espanhol.


No entanto, algumas pequenas coisas derrubam a qualidade da trama. O drama introspectivo, em determinado momento, é substituído por um thriller de ação descabido e que não combina com o que estava sendo mostrado até ali. Parece dois filmes em um. Além disso, o roteiro de Juan Galiñanes e Jorge Guerricaechevarría é lento demais e possui reviravoltas exageradas.


O acontecimento que envolve o irmão mais velho, por exemplo, é fortuito. Algumas mortes importantes não possuem consequência imediata e alguns fios narrativos ficam soltos. Sobra para a imaginação de cada um.

Além disso, o longa se vale de flashbacks mornos e, por vezes, bregas para explicar coisas que não precisam ser explicadas. São momentos de didatismo que não combinam com a narrativa até ali apresentada.


No entanto, a conclusão retoma a força com uma sequência desconfortável e intensa. O drama volta a se misturar com o horror, e o gênero reaparece palpitando em alguns ângulos e sequências. De alguma forma, dá para dizer que os 30 minutos iniciais e os 15 finais são exemplares e mostram um Paco Plaza mais maduro.


No final, temos um filme com erros e acertos, atrapalhado por um segundo ato arrastado, mas que se destaca pela potência da direção, o bom tom de horror no cotidiano e pelas atuações de ponta de Han Cejudo e Luis Tosar. É um ótimo exemplar do cinema "de gênero" espanhol. Vale a visita para, quem sabe, no futuro, conhecer filmes ainda melhores.

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