Buscar
  • Matheus Mans

Crítica: ‘Quem Vai Ficar com Mário?' é divertido, mas derrapa na mensagem


Em 2010, O Primeiro que Disse chegou aos cinemas italianos com uma mensagem moderna para a época: um rapaz que vai revelar sua sexualidade para a família, mas acaba sendo ultrapassado pelo irmão, que sai do armário primeiro. A partir daí, começa um dilema: será que ele também deve se revelar? Ou será que, agora, é melhor esperar a poeira baixar?


Agora, essa trama é modernizada e traduzida para a cultura brasileira com Quem Vai Ficar com Mário?, dirigido por Hsu Chien (Ninguém Entra, Ninguém Sai). Para quem assistiu a produção original, logo percebe-se que foram feitas algumas alterações na trama de Mário (Daniel Rocha). Aqui, ele vai encontrar o pai (José Victor Castiel, excepcional) no sul do Brasil para se revelar.


No entanto, mais do que a própria sexualidade, ele também esconde boa parte de sua vida. O pai, que é dono de uma empresa de cerveja, acha que ele fez administração. Mas, na verdade, ele é dono de uma trupe de teatro LGBT. Há, ainda, o namorado (Felipe Abib) -- que entra em xeque com o romance inesperado que nasce entre o protagonista e uma coach (Letícia Lima).

A partir daí, ao invés de apenas seguir o caminho do homem gay precisando se revelar para a família, como já vimos aos montes por aí, passa a ser uma comédia com um personagem indeciso sobre sua sexualidade. Afinal, ele acreditava ser um homem gay antes de ir para sua cidade natal, mas, quando conhece a coach, passa a ter dúvidas sobre sua verdadeira paixão.


É uma modernização importante da obra original, que Chien teve a delicadeza de colocar na tela. Tira um pouco da invisibilidade dos bissexuais, geralmente ignorados dos cinemas, e ainda traz um tempero a mais na trama. Além disso, o espectador encontra espaço para se divertir. Principalmente na atuação marcante de Nany People e Castiel, que se divertem muito na tela.


No entanto, boa parte da graça do filme é estragada por conta de dois fatores. O primeiro é o próprio Daniel Rocha. Apesar de ser um bom ator, ele se perde na condução do personagem. Muitas vezes é exagerado, estereotipado. Fica desconfortável vê-lo na tela, reforçando tantos trejeitos e maneirismos que não funcionam mais. Era melhor um ator realmente gay no papel.


Além disso, há um problema grave na mensagem final. Ao apostar nessa dicotomia do amor entre um homem e uma mulher, Quem Vai Ficar com Mário? acaba seguindo por um caminho de "escolha". Oras, abandonamos a tal "opção sexual" há anos. Fica estranho com esse final datado. Uma pena. Tira muito da graça, da suavidade. Ainda assim, porém, dá para passar bem o tempo.

#Crítica #Cinema #Nacional #Filme #Comédia

0 comentário