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  • João Pedro Yazaki

Crítica: 'Querido Evan Hansen' é musical que erra em tudo o que propõe


Os filmes Extraordinário e As Vantagens de Ser Invisível foram duas produções marcantes do diretor e roteirista Stephen Chbosky. Ambas abordam as vidas de crianças e adolescentes que precisam lidar com o bullying, a depressão, ansiedade, o luto, as inseguranças e diversas outras dificuldades. O mais interessante desses filmes está na sensibilidade e maturidade de suas histórias, sabendo exatamente como se comunicar com o público infanto-juvenil.


Em Querido Evan Hansen, Chbosky tenta novamente trazer o seu olhar doce para temas sensíveis. No entanto, esta adaptação do musical da Broadway falha em absolutamente tudo o que propõe. O filme estreia nessa semana, dia 11 de novembro, nos cinemas brasileiros.


O roteiro é assinado por Steven Levenson e o estúdio é o mesmo responsável por O Rei do Show – por sinal, existem muitas semelhanças entre os filmes, porém todas nos âmbitos negativos. Enfim, Querido Evan Hansen mostra a vida de Evan (Ben Platt), um garoto do colegial que sofre de ansiedade, depressão e fobia social. Seu único amigo é Nik (Jared Kalwani) e sua mãe, Heidi (Julianne Moore), o incentiva a seguir os conselhos do terapeuta e escrever cartas para si mesmo.


Porém, uma dessas cartas acaba parando nas mãos de Connor, um menino mais velho que também possui transtornos mentais. Após alguns dias, a partir da família de Connor, Evan descobre que o garoto cometeu suicídio, sem deixar nada a não ser a carta de Evan. A família pensa, contudo, que a carta é uma nota de suicídio do filho dedicada a Evan, que involuntariamente diz que Connor era seu melhor amigo.


A partir dessa mentira, a história vai se desenrolando em várias consequências para a vida de Evan e a família de Connor. A mãe, Cynthia (Amy Adams), a irmã Zoe (Kaitlyn Dever) e o padrasto passam a conhecer melhor a respeito dessa "amizade" tão improvável, pois Connor era perturbado, socialmente distante e dependente de drogas.


Apesar de ser uma adaptação direta de um musical, faltou sustentação nessa premissa que, convenhamos, não é das melhores. Não há motivos para torcer por Evan Hansen, muito por conta da falta de profundidade do personagem. O único traço de personalidade que vemos em Evan é sua condição mental, e nada mais. Onde estão os sonhos, desejos, as qualidades ou aspirações? Não há nem mesmo hobbies ou simples passatempos. Até Connor e Zoe, personagens importantes também pouco trabalhados, possuem características mais atrativas do que o protagonista.

A grande proposta de Querido Evan Hansen é discutir sobre sobre saúde mental, aceitação das diferenças, prevenção ao suicídio e combate às doenças psicológicas, a fim de derrubar tabus e preconceitos. Temas poderosos, que funcionam muito bem se retratados com a importância que merecem. A abordagem aqui passa longe disso.


Na verdade, no fim das contas, vemos uma história sem propósito, que não leva a lugar algum, com um roteiro que abusa de discursos apelativos sem considerar a seriedade do assunto. Isso tudo sem falar nas diversas forçações de barra que rolam soltas. Desde a aceitação da família sobre a mentira de Evan até um romance sem sentido.


Além disso, um dos pilares do filme, o musical em si, também deixa muito a desejar. Não há nada de empolgante nesse quesito. As letras são exageradamente simples e didáticas, cujo único objetivo é inflar as cenas de informações repetitivas. As músicas são basicamente as falas do roteiro transformadas em canções. Não haveria problemas se o filme fosse assim o tempo todo, pois peças musicais como Hamilton e Os Miseráveis seguem exatamente essa proposta.


Com exceção de You Will Be Found, que realmente abraça os valores da história, as músicas são bastante precárias; carecem de qualquer identidade, desenvolvimento e produção. Não há uma coreografia se quer, um figurino mais chamativo ou momentos emocionantes.


Por ser um musical, obviamente que o filme depende dessas cenas, porém pouquíssimas se salvam. Em obras semelhantes, as músicas podem servir para transportar o espectador para um universo fantasioso, onde nos conectamos com o interior dos personagens. Um exemplo de sucesso é o recente Rocketman, no qual usa e abusa da produção para nos contar o que se passava na mente de Elton John. Caberia perfeitamente aqui, porém se contentam com cenas onde os atores cantam sentados à mesa, sem nem se mexerem.


Portanto, Querido Evan Hansen é um filme de problemas infinitos. Personagens pouco convincentes e sem carisma, roteiro repleto de inconsistências e história que quer falar de tudo, mas acaba falando sobre nada. Ben Platt, embora seja um bom ator, entrega uma performance que realça todos os estereótipos de alguém que possui ansiedade social. Para um filme que quer justamente combater esses preconceitos foi um tremendo tiro no pé. Faltou muito para Stephen Chbosky alcançar o que fez nos últimos filmes. Não que sejam produções excelentes, mas pelo menos sabem dialogar com o público de forma minimamente inteligente.


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