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  • Matheus Mans

Crítica: 'Se a Rua Beale Falasse' é lento demais, ainda que simbólico


Quando saiu a lista de indicados para o Oscar, muitos já começaram a apontar os esnobados, as surpresas, os possíveis vencedores e por aí vai. E quando se falava dos esquecidos, era lugar-comum apontar Se a Rua Beale Falasse como o principal injustiçado. Não é pra menos. Afinal, o diretor por trás do longa-metragem é o premiado Barry Jenkins, de Moonlight, e conta com Brad Pitt na produção -- isso, claro, sem falar da temática extremamente atual sobre a marginalização de negros na sociedade.

Mas após assistir ao longa-metragem, essa sensação de esquecimento por parte do Oscar se esvai. Está mais do que justo a indicação para Atriz Coadjuvante, Trilha Sonora Original e Roteiro Adaptado. Mais do que isso, sem dúvidas, seria valorizar demais um filme mediano, lento demais, e que possui como ponto positivo apenas alguns simbolismos narrativos fortes e atuais, mas que já foram retratados de forma bem mais competente em outras produções -- inclusive em Moonlight, do próprio Berry Jenkins.

A trama se concentra na vida do casal Tish (Kiki Layne) e Alonzo "Fonny" Hunt (Stephan James), moradores do Harlem, em Nova York. Eles estão apaixonados, vivendo um romance de recém-casados, quando ela engravida e ele, acusado de um crime que diz não ter cometido, é colocado atrás das grades. A partir daí, precisarão se virar como der para sobreviver e dar um jeito de provar a inocência do rapaz. Como ajuda, ainda contam com Sharon (Regina King), mãe de Tish, e outra pequena parte de sua família.

O grande acerto aqui é que Jenkins, muito provavelmente de maneira consciente, construiu uma trama extremamente genérica sobre uma família negra nos EUA -- e que, de tão aberta que é, pode ser refletida na realidade de famílias negras ao redor de todo o mundo. É uma simbologia forte nas relações, nas atitudes e nos diálogos, que traduzem grande parte da marginalização do povo preto. A violência policial, a falta de oportunidades iguais, o preconceito que revela em coisas do cotidiano. Tudo é real ali.

No entanto, na ânsia de criar essa trama genérica e aberta para que faça sentido em qualquer lugar do mundo, Se a Rua Beale Falasse padece de uma lentidão extrema, de um pouco desenvolvimento narrativo. Pouquíssima coisa acontece, de fato, ao decorrer dos quase 120 minutos de projeção. Para se ter uma ideia, após uma hora de filme, a protagonista tinha apenas revelado para seus parentes sobre a gravidez. É muito tempo para pouquíssima coisa. Muito trabalho também se perde enquanto Jenkins tenta dar profundidade em cada fala do filme. Tudo parece que precisa virar algo de impacto ali.

Depois da metade do filme, quando um fato novo é revelado, parece que o longa vai engrenar e, assim como Moonlight, ganhar um sentido episódico coeso e interessante. Mas não. Se a Rua Beale Falasse se torna apenas mais ainda arrastado. A sensação é que ele é mais longo que deveria. Até o estilo de filmagem, quase sem cortes em diálogos, ajuda a criar essa sensação de que a coisa está se arrastando e a história não está fluindo. Estranho Jenkins não ter repetido vitalidade de seus outros ótimos filmes.

A coisa só não desanda de vez por conta da forte mensagem, como já relatado, e pelo elenco e fotografia. A estreante em longas Kiki Layne e Stephan James (Selma) fazem um bom trabalho como protagonista, ainda que não sejam excepcionais. King (Ray) está bem, mas difícil dizer que ela merece o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Ela tem apenas duas cenas de impacto -- e olhe lá. Emma Stone, por A Favorita, merece mais. Destaque também para o ótimo Colman Domingo (Selma). Merecia mais espaço do roteiro. Sobre a fotografia, nada de erros. Os tons azuis de Moonlight ficam para trás e o longa assume o vermelhe e amarelo. Pode tirar o Oscar de Cuarón por Roma.

Mas Se a Rua Beale Falasse é um filme mediano, sem muito impacto ou grandes cenas, prejudicado pela trama genérica e pelo desespero de Jenkins em fazer um filme marcante, de grandes diálogos. Falta fluidez, senso narrativo e um pouco mais de coesão na história contada. Pessoas que se identificarem com a história, sem dúvida, vão sentir mais afeição pelo longa, além de ter mais emoções ao longo da produção. Mas, de resto, pouco a dizer. Mereceu a esnobada -- se é que pode ser uma esnobada. Afinal, essas três indicações para o Oscar 2019 está mais do que o necessário.