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  • Matheus Mans

Crítica: 'Simonal' é dançante e bem-feito, sem deixar de ser crítico


O cantor e compositor Wilson Simonal sofreu durante a Ditadura Militar no Brasil. E não por ter feito, como Chico e Caetano, músicas de protesto ou coisas do tipo. Pelo contrário: o carioca, responsável por canções como Meu Limão, Meu Limoeiro, Vesti Azul e Nem Vem que Não Tem, decidiu que precisava continuar a alegrar o povo com o suingue já característico de sua carreira. Isso acabou resultando num mal-estar dentre a classe artística e, posteriormente, um afastamento completo de Simonal dos palcos.

Esse ponto, tão delicado e controverso, não é escondido ou retratado de maneira tímida em Simonal, cinebiografia que chega pelas mãos do talentoso e estreante Leonardo Domingues. Coerente com a trajetória do cantor, o longa-metragem percorre todas as instância da vida de Simonal, indo desde o começo cantando em bares mequetrefes, passando pelo ápice e até chegar numa cova que o próprio carioca cavou. Não é algo fácil de se fazer, nem simples. É tocar o dedo na ferida e, corajosamente, se posicionar.

O fato é que Simonal é bem produzido em todas as suas instâncias. A começar pela escalação de elenco. Ainda que muitos tenham torcido o nariz, Fabrício Boliveira (Além do Homem) encarna o cantor com exatidão. Há o suingue e a malandragem de Simonal, sem deixar de lado uma certa inocência que é primordial para os últimos momentos. Isis Valverde (Amor.com), ainda que seja uma atriz com muitas limitações, entrega uma boa Teresa.

Caco Ciocler, Bruce Gomlevsky e Mariana Lima elevam o tom com suas participações especiais. Só Leandro Hassum que entrega um Carlos Imperial péssimo. Usa a voz do Gru, de Meu Malvado Favorito, deixando-o mais caricato. Qualquer coisa era melhor.

A direção de Domingues , ainda que crua por ser sua estreia em longas, é ousada e talentosa. Há um excesso de música aqui e acolá, incomodando com a falta de silêncio, além de sequências desnecessárias, mas Simonal funciona em sua essência. Há um plano-sequência de cair o queixo, quando o cantor sai do palco para ir bebericar em um bar. A maioria das músicas também são bem encaixadas, valorizando a emoção da cena e o poder de cada canção. Interessante de ver, gostoso de ouvir. A combinação perfeita.

O casamento ideal e que faz o filme se destacar é a coragem de Domingues com o roteirista Victor Atherino (Pequeno Segredo). Antes de tudo, eles fazem algo que já deu certo no recente Legalize Já, por exemplo. O foco aqui é a música de Simonal, não sua vida. Ainda que dê a sensação de falta de contexto, a história fica muito mais fluída e interessante. O ponto alto, porém, está na capacidade da dupla em compreender pelo quê Simonal passou e colocar sua opinião ali. O cantor errou? Sim, ainda que de maneira inconsciente. Machado e Atherino, então, o reintroduzem ao público. Reapresentam. A cena é linda, deixa os olhos marejados e fazem justiça com Simonal.

É um cinebiografia, então, que tem seu problemas, mas que se destaca mais por suas virtudes. Tem ousadia visual, cria bons momentos, é vibrante e dançante como as músicas do personagem e, acima de tudo, sai na frente de outros filmes recentes, como Elis e Getúlio, e toca na ferida e nas polêmicas de seus biografados. Difícil não se emocionar e não se contagiar pelo ritmo de Simonal. E, além de tudo, faz pensar: será que o público e a classe artística deve julgar, novamente, pessoas que sem mantém neutras em questões políticas? O excesso, muitas vezes, não pode ser mais prejudicial?

Nem precisa pagar pra ver a resposta disso. É só olhar pro passado e ver a história de Simonal. Poucos sabem o duro que ele deu. Talvez isso mude agora, com esse ótimo filme.

*Filme assistido durante a cobertura da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.