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  • Foto do escritorMatheus Mans

Crítica: 'Skinamarink' é engodo em formato de filme experimental


As pessoas estão desesperadas pela transformação do cinema. é evidente. Tudo ao nosso redor, em termos de mídia e conteúdo, está passando por um processo consideravelmente brusco de transformação: músicas estão mais curtas para agradar as redes sociais, portais produzem notícias para agradar robôs de SEO, novelas estão focadas em fazer sucesso nas redes sociais. E o cinema? Qual a transformação de conteúdo, não de forma, que vai nos entregar, enfim?


Afinal, a forma que o cinema nos é entrega já mudou bastante nos últimos anos -- VHS, DVD, streaming. O conteúdo permanece, insiste. Quando surge algo que pode parecer minimamente diferente, uma legião surge logo atrás para defender como se aquele filme fosse a revolução. A tão esperada transformação. Foi com Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo, injustificado vencedor do Oscar 2023, e também com Skinamarink, terror que estreia nesta quinta-feira, 23.


Filmado de maneira quase que totalmente granulada, como se fosse uma gravação caseira, o longa-metragem parte de uma premissa aparentemente simples: duas crianças estão sozinhas em casa, após um aparente abandono da figura paterna desses dois -- há uma possibilidade aqui de que tudo tenha a ver com algum tipo de abuso, mas fica longe de ser algo claro ou com boa metáfora sobre isso. Eles vivem na casa, ou sobrevivem, com medo do desconhecido.

Nós, espectadores, não vemos nada disso com clareza. Como dito, tudo é filmado de modo bastante artesanal, com uma montagem pretensamente não-linear, para tentar confundir os nossos sentidos. A imagem, aliás, não basta estar granulada: o diretor e roteirista Kyle Edward Ball opta por também posicionar mal a câmera, geralmente jogando a imagem para um teto, um canto de parede ou extremamente focada em algum objeto. O ambiente, pra nós, nunca é claro.


Confesso que a proposta chama a atenção. O senso de desorientação no cinema, quando funciona, é poderoso -- até agora pego me lembrando de uma cena aérea de John Wick 4, que senti minha alma saindo do corpo para flanar por cima da ação. Aqui, porém, pouco disso é realmente efetivo. Há um medo aqui e ali, principalmente pela solidão das crianças e dos barulhos que surgem aqui e acolá. Aquele barulho noturno da geladeira que achamos que é um monstro, quando crianças, ou quando o pisa estala e temos certeza de que há alguém por ali.


São medos quase que primais. O único acerto da produção. Afinal, percebendo como esse medo dos sussurros e dos pequenos barulhos pode incomodar, Ball exagera -- são 100 minutos de projeção desse artifício sendo usado à torto e à direito. Aquele pequeno comichão de medo que sentimos no começo logo se torna tão banal que nos esquecemos dele e dos riscos que os meninos estão sentindo. Sobra, então, apenas o tédio de um filme que não se sustenta.


Difícil entender todo o barulho ao redor de Skinamarink, sendo que é só isso: um amontado de imagens que trabalham em prol de uma boa ideia inicial e que nunca é desenvolvida. De novo, acredito que as pessoas -- principalmente essa nova geração mais rápida, que busca essa narrativa TikTok -- estão querendo tão desesperadamente um novo cinema que abraçam qualquer coisa que parece minimamente diferente. E assim, uma pena, fica fácil de enganar.

 

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