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  • Foto do escritorMatheus Mans

Crítica: 'Som da Liberdade' simplifica demais as emoções de seus personagens


Esqueça Barbie, Oppenheimer e afins. O filme mais polêmico de 2023 é esta pequena produção que enfim chega aos cinemas nesta quinta-feira, 21 de setembro: Som da Liberdade. O motivo de tanto escarcéu? Por algum motivo, que ainda não consegui descobrir exatamente, a direita norte-americana amou e adotou o filme como uma bandeira. A esquerda, claro, detestou. O fato é que, independente dessa briga política, o filme é mediano -- nem bom, nem ruim. Só fraco.


Dirigido pelo mexicano Alejandro Monteverde, até então um desconhecido cineastas que dirigiu filmes como Little Boy e Bella, o longa-metragem conta a história de um investigador norte-americano (Jim Caviezel) que decide partir para a Colômbia. O motivo? Desbaratar uma cadeia de global de pedofilia, onde crianças são sequestradas e, enfim, levadas para redes globais.


É uma história absolutamente convencional de um filme dramático, com toques de suspense, em que acompanhamos esse herói (o tal Tim Ballard) tentando prender criminosos que violentam crianças. É uma situação louvável e terrível ao mesmo tempo. E o que tem de direita nisso? Talvez seja algumas piscadelas que o roteiro de Rod Barr e Monteverde dão ao público.


Em várias cenas, Ballard chama os pequenos de "crianças de Deus" -- um claro aceno ao público cristão que assiste ao filme. Também há uma piadinha infame, dita pelo sempre ótimo Bill Camp (a melhor coisa do filme, disparado), em que demonstra preocupação com um GPS injetável. Medo de chips? Pois é. Isso sem falar do mote todo da coisa. Uma das bandeiras da direita é toda a questão de proteger a família de uma violência política. Ballard seria um novo Messias?


Nós, no mundo real, já sabemos que não. Mas, independente disso, realmente não vejo problemas em um filme ser direitista. Oras, quantos filmes de viés progressista chegam aos cinemas, aos montes, todos os anos? Impedir que um filme como Som da Liberdade circule não é bom pra ninguém. Ainda mais por não incentivar uma teoria da conspiração fantasiosa.

O problema é o filme não se assumir político, apesar de ser. Entrevistei o diretor e um dos donos da Angels, o estúdio por trás do filme, pro Estadão. Quando perguntei se O Som da Liberdade era uma obra política, só faltou os dois caírem da cadeira. "Não, não, não, não", disseram eles, repetidamente. Como não? Não importa que o filme foi adotado pela direita, não importa a raiva da esquerda. Nada disso importa. Mas o filme é perigoso quando não se assume político.


Pensar é um ato político. Para fazer um filme, salvo engano, é necessário um exercício profundo de reflexão, de entendimento do mundo. Você pinça uma história, seja ela real ou não, pois quer que alguma mensagem ali contida chegue ao mundo. Isso é política, oras. Quando Alejandro diz que não, está simplificando demais o significado do filme -- e isso é sentido na produção em si.


Talvez fugindo de estereótipos políticos, o filme se esvazia repetidamente. As crianças são sequestradas e abusadas, mas logo estão cantando Adoleta com seus salvadores brancos -- cadê a complexidade emocional do pequenino Miguel (Lucás Ávila)? Americanos brancos invadem a selva colombiana como se fosse algo simples. E pior: saem de lá sem um arranhão.


Monteverde tem medo de se embrenhar no tema e revelar, assim, seu lado político. Ele acha que o filme não é político, mas isso é apenas um desejo de produção. Ao fugir de seus significados, Alejandro enche Som da Liberdade de política -- e, talvez por isso, o longa-metragem esteja sendo tão incensado por conservadores. É na falta que a direita se alastra. Na ausência que encontram sua pauta. É só ver o que aconteceu no Brasil, em 2013. "Sem partido". Será mesmo?


Em termos de história, Som da Liberdade é isso. Uma história simples, sem complexidade, que joga muito para o espiritual na hora de explicar o complexo do ser humano. Não há complexidade, não há estrutura ou profundidade. Como filme de drama religioso, com toques de suspense, é razoável. Como filme profundo que pensa ser, muitas vezes, é um fiasco total.

 

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