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  • Matheus Mans

Crítica: 'Suk Suk' é um dos filmes mais delicados de 2021


Falar sobre sexualidade na terceira idade já é um tabu. A maioria das pessoas acha, simplesmente, que a idade avançada impede que um homem ou uma mulher mantenham algum tipo de relação. Ou, sequer, tenha atração. Ainda mais tabu é quando esse homem ou mulher idoso sente atração por alguém do mesmo sexo, principalmente quando essa pessoa já teve ou tem uma relação heteronormativa. Parece que aquela pessoa está presa no desejo dos outros.


Por isso Suk Suk: Um Amor em Segredo é um filme tão importante, tão necessário. Essa produção de Hong Kong, dirigida e roteirizada por Ray Yeung, conta a história de dois homens já na casa dos 60 anos que se descobrem. Que se encontram. Ambos possuem famílias formadas, são vistos pelos outros como heterossexuais. No entanto, escondidos, eles se amam -- não só espiritualmente, como também fisicamente. Já na terceira idade, os dois se libertam.


Um degrau acima de filmes como O Amor é Estranho, o longa-metragem de Hong Kong preza, principalmente, pela delicadeza. Ao longo de pouco mais de 90 minutos, Suk Suk: Um Amor em Segredo vai mostrando esses homens se conhecem e a liberdade sexual de ambos sussurrando para ser, enfim, libertada. Há tensão entre eles, mas Yeung trata principalmente de falar sobre o amor e a sociedade nessa história. É o embate entre o que sentem e o que vivem lá fora.

Com encontros às escondidas, quase como um Amores Expressos, o longa-metragem vai se construindo. E o principal destaque nisso está nas atuações certeiras de Tai-Bo (Police Story: A Guerra das Drogas) e Ben Yuen (2046). Os dois se entregam para a essência de seus personagens em construções delicadas e potentes -- lembrando os melhores momentos de Alfred Molina e John Lithgow no já anteriormente citado O Amor é Estranho. Há força na tela.


Uma pena que falte uma coisa ou outra para o filme ser realmente perfeito. As emoções envolvendo a esposa, por exemplo, traída e vendo que o amor de seu marido nunca foi realmente seu. Ou, ainda, a questão legislativa que surge no final e que não é resolvida. Parece que Yeung se apreça para inserir mais elementos quando o filme está chegando ao final, para ampliar seu alcance. E não precisava. Poderia ter terminado com sua introspecção mesmo.


Ainda assim, apesar dessa derrapada, o longa-metragem não é ruim, tampouco perde muita nota. Suk Suk: Um Amor em Segredo é um filme urgente, necessário, forte, delicado. Une emoções e sentimentos que, apesar de ser a partir de uma história em Hong Kong, atravessa oceanos e deve acertar em muitos corações por aí. Prepare o lenço e a emoção. Esta produção consegue falar sobre a essência do ser humano e do amor. E é isso que precisamos hoje em dia.


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