Buscar
  • Matheus Mans

Crítica: 'Tantas Almas' navega no mar da tranquilidade para falar sobre luto


José é um homem calmo, de semblante sereno, que recebe a pior notícia de sua vida ao chegar em casa após um longo dia de pesca. Seus dois filhos foram mortos por forças paramilitares e jogados no rio que cruza esse pequeno vilarejo colombiano. Incrédulo e em busca do luto, José decide não ficar parado em casa. Pega sua canoa e começa uma busca incessante pelos corpos dos meninos. Só quando encontrá-los é que ele, José, terá paz. Essa é a trama de Tantas Almas.


Dirigido por Nicolás Rincón Gille, do documentário Los Abrazos del Río, o longa-metragem acompanha o ritmo de José, sem nunca apreçar a narrativa. Também roteirizado por Gille, Tantas Almas segue seu próprio passo lento mostrando o processo de luto desse pai violentado. E não poderia ser diferente, já que o filme nunca se propõe a ser algo além de um drama. O luto muda de pessoa para pessoa. Para José, não é a vingança sanguinária que surge, mas a busca.


Essencialmente um road movie, Tantas Almas coloca uma série de personagens no caminho de José. São pessoas que, em sua maioria, vão tentar interromper a jornada desse personagem machucado, seja rindo de seus desejos ou, então, tentando fazer com que José retroceda. Afinal, os paramilitares ainda estão ali, à espreita. Se insistir na teimosia, José pode acabar encontrando violência como resposta e, numa reviravolta, se tornar mais uma vítima do ódio.

Em paralelo aos sentimentos de José, porém, há algo ainda mais profundo: uma discussão antropológica e social do que é a sociedade colombiana. Ainda que não tenha a potência poética de Pássaros de Verão, um dos grandes filmes da década passada, essas discussão ganham força quando Nicolás coloca a masculinidade tóxica em perspectiva. Mostra como pode existir sensibilidade em um momento em que tudo ao redor transpira violência, ódio, ressentimento.


Além disso, Tantas Almas tem uma das cenas mais icônicas de 2022: um paramilitar que, tentando oprimir José, o faz tomar sopa. Sem parar. Prato atrás de prato, ainda que o personagem diga que não quer. É uma violência simbólica e que mostra como o filme de Nicolás está em busca de abrir a câmera para imagens que vão além do óbvio. Seria chocante colocar José apanhando, claro. Mas a cena da sopa, junto com a busca pelos corpos, também o faz.


Há momentos que pecam pela falta de celeridade na narrativa e, principalmente, por não encontrar a poesia que a cena exige. Isso tira um pouco do brilho de Tantas Almas, que revela fragilidades inesperadas em seu transcorrer. Mas, ainda assim, é um daqueles filmes que ficam na memória, principalmente por conta de cenas silenciosas e lentas e que, no final das contas, conseguem golpear o público que sai dos cinemas chocado, em transe, cheio de questões.

 

0 comentário