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  • Foto do escritorMatheus Mans

Crítica: 'Tár' celebra a arte enquanto aponta para a cultura do cancelamento


Para introduzir aqueles que não acostumados com o termo, uma breve explicação: cultura de cancelamento é quando pessoas embarcam em movimentos digitais, em massa, contra pessoas ou instituições. "Cancelam" essas figuras, como se não pudéssemos mais nos relacionar com elas -- e quem ousa quebrar isso, também é "cancelado". Um movimento de lados positivos e negativos, mas principalmente pendendo para o mal -- e é sobre isso que fala o ótimo Tár.


Dirigido por Todd Field (Pecados Íntimos), que desde 2006 não comandava um filme, o longa-metragem conta a história da maestro Lydia Tár (Cate Blanchett), considerada uma das maiores de sua área. Ela domina a música como poucos. E sabe disso. No entanto, todo esse conhecimento entra em confronto direto com suas atitudes. Ela é dona de si, defende com unhas e dentes o que pensa e, o pior de tudo, deixa seus interesses sexuais falarem mais alto.


Isso, ao longo das 2h40 de projeção, acaba criando uma série de percalços e pequenos problemas. Ela se indispõe com as pessoas, principalmente aqueles mais jovens que pensam diferente dela. Entre as mulheres, fica a sensação de que não faz amigas, mas apenas pessoas que podem servir para ela de alguma forma. Essa Tár criada por Field, assim, está longe de ser perfeita. Pelo contrário: é odiável e nos faz questionar até que ponto temos alguém como ídolo.


Esse, assim, é o primeiro ponto central da narrativa de Field. Artistas geniais versus histórias pessoas aterradoras. Até que ponto separamos artistas das obras? É uma questão que parece ser apenas superficial em um primeiro momento, mas que aos poucos vai ganhando corpo. É uma discussões sobre o que é a arte, como ela nos afeta, como nos relacionamos com a arte e, sobretudo, como os emissários (ou seja, artistas) se portam diante de uma obra. Reação é arte.

No entanto, a sensação que fica é que isso é apenas o trampolim para o questionamento maior de Field, que assina o roteiro. Como essas pessoas, que vivem pela arte e respiram tradição, são vistas hoje em dia? Tár quer ser lembrada pela arte, não por quem é. Enxerga Bach como um de seus objetivos -- tinha posturas possivelmente misóginas e antissemitas, mas hoje isso não importa mais. Será que hoje, séculos após, Tár também consegue atravessar o "cancelamento"?


Vi algumas críticas por aí insistindo que Field joga as questões sobre a forma da arte e o que é o cancelamento no nosso colo, para que a gente tome a decisão sobre o assunto. Mas não é nada disso. Digo o porquê: Tár, sempre que pode, escapa de condenar Lydia. Mesmo cometendo todos os erros possíveis, a direção sempre tenta apontar que ela está fazendo isso tudo pela arte. Não é à toa que a primeira onda de cancelamento chega de vídeos editados. Field diz que é injusto.


Assim como Damien Chazelle reclama que Hollywood está ficando cada vez mais careta com Babilônia, Field questiona aqui como as grandes obras vão sobreviver se não há mais espaço para que a genialidade aconteça, seja como for. É um caminho bastante reverso de muitos outros argumentos que estávamos vendo no cinema até então. O cancelamento começa a ser percebido como algo que poda a criatividade -- mas será que não devemos podar Lydias por aí?


É uma bela discussão, que Field trata logo de mostrar seu ponto de vista, contando ainda com uma Blanchett (Blue Jasmine) absolutamente deslumbrante. Só não é melhor por conta de dois problemas. O primeiro: o roteiro está tão mergulhado nessa realidade que, às vezes, não inclui o espectador. Ficamos quase de fora, sem entender. Depois, questiono sobre a validade de jogar essa discussão em cima de uma mulher, que é quem realmente sofre abusos e não é ouvida.


Fica um gostinho amargo e que causa conflito de emoções. Será que era o melhor dos caminhos? O genial Whiplash tem um caminho bem similar, ainda que pré-cancelamento, e não causa esse espanto justamente por colocar JK Simmons como protagonista. Enfim: são discussões enriquecedoras que Tár, mais um grande filme da temporada, vai semear por aí. E fiquemos de olho: se furar a bolha, não duvido que gere uma onda de cancelamento contra Field.

 

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