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  • Matheus Mans

Crítica: 'Tau', da Netflix, é ficção científica sem identidade própria


Logo no começo, já fica claro que Tau, novo longa-metragem original da Netflix, é uma grande mistura de várias ideias. Tem o formato básico de Ex_Machina, o relacionamento moderno de Ela, o sadismo cruel e claustrofóbico de Jogos Mortais, as questões tecnológicas que Black Mirror sempre traz. Mas será que juntar tanta coisa em uma só história é positivo?

No caso de Tau, é péssimo. Dirigido por Federico D' Alessandro, que trabalhou no departamento de arte de Doutor Estranho e A Múmia, a nova aposta de ficção científica da Netflix volta a mirar em grandes ideias e a acertar no vazio. Assim como Mudo, Cloverfield: Paradox e The Titan, o filme é um fiasco que vai sendo derrubado a cada minuto de projeção.

Mas não começa assim. O início até é eletrizante: Julia (Maika Monroe) está vivendo sua vida quando é sequestrada e acorda num quarto sem informações -- a la Oldboy. A partir daí, junto com outros dois colegas de cárcere, bola um plano mirabolante pra fugir. Só que quando obtém êxito, bate em outra barreira: na crueldade do dono do local (Ed Skrein) e na inteligência artificial de alto desempenho Tau (com trabalho de voz de Gary Oldman).

É uma premissa interessante. Primeiro parece Jogos Mortais e, logo depois, caminha para um Ela de suspense. O clima criado é bom e o visual da inteligência artificial, do robô-guarda e da casa em si chamam a atenção -- afinal, esta é a especialidade do diretor. Só que, aos poucos, esse clima é desconstruído e a história se perde. E o punhado de filmes aqui sublinhados se amontoam para tentar dar alguma unidade à Tau.

Só que é tanta referência -- e tanta falta de originalidade -- que tudo vai por água abaixo. A começar pelas atuações: Maika Monroe (Corrente do Mal) já se provou uma boa atriz. Mas fica claro, em Tau, que ela percebeu a bomba na qual se meteu. Está apática e artificial. Gary Oldman (O Destino de uma Nação) até tenta, mas o roteiro lhe impede de fazer um bom trabalho. E quem é Ed Skrein? Ele é péssimo. Zero emoção, zero interpretação.

Os efeitos especiais, enquanto isso, parecem vindos direto de Sharknado e afins -- e com todo respeito aos filmes dos tubarões. É infantil, falso, artificial. A primeira morte na tela causa riso e te tira do filme, dando uma mostra do que está por vir. Difícil entender como a Netflix deixou passar algo assim. Além disso, com exceção do visual de Tau -- que, curiosamente, parece uma mandala do Doutor Estranho -- nenhum aspecto técnico se sobressai.

Mas o grande problema mora na direção e no roteiro, sendo este último de Noga Landau (Escola de Magia). Rocambolesco e óbvio, ele tenta juntar histórias impactantes sobre inteligência artificial, mas acaba transformando Tau num dramalhão mexicano com tecnologia. As viradas de trama são artificiais, diálogos são pífios e o desenvolvimento de personagens é raso.

Isso, claro, sem falar no final: dá vontade de rir e desligar logo a TV -- ainda que não seja tão ruim quanto The Titan.

Assim, fica mais um filme natimorto na conta da Netflix. Pode até divertir um ou outro desavisado, que nem deve se atentar muito à história para achar o filme bom. Mas o fato é que Tau é potencial desperdiçado. Seja pelo elenco -- que tem um ator oscarizado! -- ou pela premissa, que é boa e poderia criar um Jogos Mortais virtual ou uma versão diferente de A Sala Verde. Infelizmente, porém, não é nada disso. Passe longe.