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  • Matheus Mans

Crítica: 'Tempo' é filme sem vida de Shyamalan, apesar de boas ideias


M. Night Shyamalan é um cineasta polêmico. Ponto. Afinal, ele não agrada todo mundo por conta de seu estilo e, principalmente, pela instabilidade de seus trabalhos -- tem "clássicos modernos", como O Sexto Sentido e Sinais, cults como A Dama da Água e os fiascos como O Último Mestre do Ar e Depois da Terra. O novo Tempo não chega a ser um desastre. Mas também não é bom.


Estreia desta quinta-feira, 29, o longa-metragem conta a história de uma série de pessoas que, de férias num resort, vai passear numa praia deserta, paradisíaca. O principal núcleo é uma família formada por Gael García Bernal, Vicky Krieps, Alex Wolff e Thomasin McKenzie. Ainda tem um médico, uma idosa, um enfermeiro, um rapper e por aí vai. Uma mistura inusitada.


O negócio fica estranho, porém, quando os personagens percebem que o tempo passa de maneira diferente naquela praia. Tudo é mais rápido. Segundos são dias. Minutos são horas. E horas são anos. A partir daí, começa o desespero daqueles personagens em tentar escapar com vida da praia e antes que envelheçam demais -- as mortes naquele loca, afinal, se acumulam.


A sacada da narrativa, inspirada em uma HQ assinada por Pierre-Oscar Lévy e Frederick Peeters, é o ponto alto. A tensão surge quase que de maneira natural quando o tempo começa a se impor. Assim como em outros filmes de Shyamalan, temas como vida, espiritualidade e natureza começam a pipocar aqui e ali, mas o principal foco na história é desenvolver a tensão.

O problema está no desenrolar dessa história. Primeiramente, Shyamalan mostra problemas em desenvolver a atuação do elenco -- algo não visto com força antes. Ainda que os atores se esforcem, parece que há um descompasso da trama com a história. Oras, o tempo corre, eles envelhecem precocemente. E parece que ninguém se desespera, ninguém reage de acordo ali.


Falta mais intensidade nas atuações. Obviamente, nomes como Bernal (E Sua Mãe Também) e Krieps (Trama Fantasma) saberiam entregar essa intensidade. Mas parece que falta um direcionamento melhor. O desenrolar da história parece não se conectar com as atuações na tela. Faltou desespero -- como os personagens de Midsommar descobrindo todo o caos.


Mas o que mais decepciona é o final de Tempo. Conhecido por suas reviravoltas, Shyamalan deve ter ficado preso no que é apresentado na HQ. É o plot twist do longa-metragem é um dos mais decepcionantes de sua carreira. Óbvio, mal desenvolvido, sem impacto. E toda a questão dos atores não acompanharem a narrativa continua, ainda com subtramas sobrando ali.


Uma pena. Tempo tinha potencial de ser um novo A Vila, por exemplo, com toques de A Dama da Água. Do jeito que ficou, serviria mais como um episódio de série, com menos blá-blá-blá -- não é à toa que o filme lembra muito Twilight Zone e Ilha da Fantasia. Shyamalan, aparentemente, ainda não se encontrou totalmente mesmo após bons filmes. E sentimos falta do cineasta.


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