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  • Matheus Mans

Crítica: 'Tenet' é filme que exagera na confusão e tropeça em suas ambições


Ame-o ou o odeie, Christopher Nolan é um dos cineastas mais inventivos de sua geração. No entanto, isso não significa que o diretor de filmes como A Origem, Interestelar e Dunkirk é uma pessoa impassível de erros. Pelo contrário. Ele erra, e muito, causando furor entre a comunidade cinéfila, que o condena por tramas aparentemente absurdas, com roteiros demasiadamente complexos para histórias banais e algumas outras características repetitivas.


Agora, com a chegada de Tenet aos cinemas, Nolan está colocando um alvo ainda maior em suas costas para essa perseguição. Se acharam que Interestelar era um filme que criava uma história absurda ou que Dunkirk complicava demais uma trama simples, é que não viram Tenet. Seu novo longa-metragem, que chega aos cinemas depois de sete meses de nenhum lançamento, é uma trama amorfa, que exagera na dose da complicação, e que nunca se resolve.


Não vou entrar em méritos e detalhes da trama aqui, já que a narrativa faz parte do clima criado pelo cineasta e entregá-la antes, de bandeja, seria um absurdo. No entanto, apenas para que vocês, leitores, entendam do que estou falando: Tenet acompanha a trama de um homem (John David Washington) que entra de cabeça em uma guerra estranha, que não parece sua. Obviamente, mexe com tempo e espaço, algo que Nolan se diverte desde A Origem, por exemplo.

No entanto, enquanto em A Origem vemos um mergulho aos não-espaço dos sonhos e em Interestelar vemos o cancelamento de tempo-espaço a partir de uma viagem espacial, em Tenet vemos esse tempo andar de costas. Ir contra a maré. É uma proposta ousada, talvez a mais radical da carreira de Nolan, e que acaba causando problemas evidentes. Afinal, repare: por mais que A Origem seja inteligente, a premissa é simples. Mergulho em sonhos por camadas.


Dunkirk também. Acompanha várias pessoas, em diversos lugares, com alguma influência na batalha de Dunkirk sendo retratadas em tempos diferentes, mas no mesmo espaço. Ok, ainda dá para acompanhar. Em Interestelar, é o pai que avançou milhares de anos à frente e precisa lidar com seus filhos crescidos. Também é compreensível. Em Tenet, enquanto isso, o espectador precisa lidar com dois roteiros ao mesmo tempo, duas histórias, caminhando em confluência.


É confuso demais. Demais! É daqueles filmes que exigem uma segunda assistida para compreender metade. E isso, caro leitor, está longe de ser um elogio. Filmes podem ser quebra-cabeças, sim. Mas não nesse exagero que vemos aqui. Nolan se perde. Cria muitas linhas temporais. Algumas coisas essenciais demora um filme inteiro para explicar. Outras, enquanto isso, não explica. Pior: resolve situações complexas com um diálogo, com coisas simples.

Oras, é como se Nolan colocasse um elefante em uma sala e nos entregasse um lápis para retirá-lo dali. Não funciona. O cineasta britânico, enfim, ultrapassa a barreira do compreensível e do aceitável. Além disso, a partir da premissa, algumas cenas beiram o ridículo -- uma guerra mais para o final do filme, apesar de ser grandiosa, tem algumas cenas que realmente causam um riso abafado. A ideia em si, como sempre, é muito boa. Mas complexa demais para resolver.


A sensação é de que Nolan teve todas essas ideias, ficou realmente empolgado com tudo que pensou, mas não soube resolver. E pra ele, tudo bem. O importante é causar o impacto, afinal.


O elenco até que está bem, com destaque para Washington e Robert Pattinson (O Diabo de Cada Dia). No entanto, a atuação dos dois acaba escondida em vários momentos pelas explosões descabidas do diretor, que cria algumas passagens que parecem saídas diretamente de um Velozes & Furiosos com brincadeiras com o tempo. Além disso, Nolan recai no seu erro de não conseguir construir personagens femininas fortes. Elizabeth Debicki (As Viúvas) é desperdiçada.


Por fim, o vilão (Kenneth Branagh) é quase uma caricatura de si mesmo. Não ajuda a trama a avançar, tampouco traz algo de origem -- lembrei de Thanos, de Vingadores: Guerra Infinita, em vários momentos. Dessa forma, no conjunto da obra, Tenet é um filme fraco. Tem bons efeitos, bons atores. Mas, misturando tudo, encontramos apenas um filme pretensioso demais, que vai além do possível, e não se resolve. E me desculpem aqueles que gostaram: isso não é cinema.

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