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  • Matheus Mans

Crítica: 'Terra à Deriva' é 'forçação de barra' da Netflix


O Sol está começando a morrer. A Terra, com isso, entra numa sinuca de bico. Se ficar parada ali, todo mundo morre. Mas qual a saída? Colocar todo mundo numa nave? Esperar o pior? Se esconder nos subterrâneos da Terra? São caminhos assim, cheios de surpresas e complexidades, que segue a narrativa de Terra à Deriva, produção chinesa original da Netflix que chegou à plataforma na última semana. Filme-catástrofe, o longa acompanha um grupo de pessoas que tenta salvar a Terra após algo sair do controle.

Afinal, o planeta decidiu não esperar o pior. Governos se uniram, colocaram propulsores numa das faces do globo e partiram do Sistema Solar. Isso mesmo: com a eminente morte do Sol, o Planeta Terra saiu por aí, fugindo da vida como conhecemos. O plano é ir para outro sistema, atravessando áreas espaciais ao longo de milhares de anos. Para sobreviver, pessoas foram colocadas em bunkers subterrâneos e simplesmente aguardam. As coisas complicam, porém, quando a Terra entra em rota de colisão com Júpiter. É aí que entram os irmãos Liu Qi (Chuxiao Qu) e Han Duoduo (Jin Mai Jaho).

Dirigido pelo chinês Frant Gwo, seria difícil dizer que o longa-metragem vem da China se não fosse o idioma. Puramente hollywoodiano, Terra à Deriva faz uma trama absurda, sem pé nem cabeça, que faz bater saudade de filmes clássicos sobre catástrofes como O Dia Depois de Amanhã e Armagedom. Afinal, esta produção da Netflix é muito mais próxima de outras produções descerebradas recentes, como Terremoto e Tempestade. É um amontoado de situações sem qualquer sentido científico.

O filme, claro, ignora dezenas e dezenas de coisas que aconteceriam se a Terra saísse vagando por aí. Como ficaria a gravidade? O ecossistema que sustenta a vida? As marés? A temperatura? Há uma tentativa de desculpa, quando eles saem dos bunkers, mostrando uma terra gelada e inabitada. Mas e daí que estão debaixo da Terra? Uma movimentação como a que acontece, em que a Terra acaba por se encontrar com Júpiter, seria tão catastrófica quanto explosão solar. A morte seria inevitável aqui.

Mas assumindo uma licença poética, a tentativa de embarcar nessa "forçação de barra" ainda é difícil. Ainda que parte do elenco funcione, principalmente Chuxiao Qu e Jing Wu, há falhas. Jin Mai Jaho é terrível -- em determinado momento, quando começa a chorar, a vontade é de avançar o filme. E os efeitos especiais funcionam em parte. Curiosamente, quando estão mais próximos da tela, são mais reais. Talvez até tenham usado alguns efeitos práticos. Mas quando é efeito de longe... Que desespero! Péssimo.

Terra à Deriva também tem um roteiro sofrível, que dá voltas, e parece não avançar tanto quanto deveria. Há algumas boas sacadas -- como a total ignorada que dá aos americanos -- e alguns personagens bem desenvolvidos. Mas, no geral, decepciona.

Dessa forma, esta nova produção original da Netflix -- que, curiosamente, ainda não consegue operar no País oriental por restrições do governo chinês -- deve satisfazer os que buscam um divertimento descerebrado, que nada agrega ao final. É para passar o tempo. Não adianta buscar lógica, boas histórias, algo marcante. É aquele filme banal que é assistido uma vez para nunca mais. Isso se alguém lembrar daqui semanas...