Buscar
  • Matheus Mans

Crítica: 'Terra Alta' empolga com thriller policial espanhol, apesar de exageros


Certo dia, o investigador Melchor é chamado para averiguar um possível assassinato. Chega no local e, numa suntuosa sala de estar, se depara com um casal de idosos. Estão ensanguentados, mortos, torturados. Logo se nota que são os Adell, ricaços da região e donos de uma gráfica que domina aquele lado da Espanha. Esse é o ponto de partida do tenso thriller espanhol Terra Alta.


Seguindo os passos das boas tramas de gênero do cinema espanhol, com títulos como El Cuerpo e Um Contratempo, a obra de Javier Cercas acompanha não só a investigação de Melchor nesse caso, como também busca se aprofundar na vida e em tudo que lhe antecede. Assim, Cercas alterna capítulos de flashback com avanços da investigação do caso Adell.


Ao contrário da maioria dos livros que usam do recurso de flashbacks, Terra Alta felizmente não se torna cansativo. Pelo contrário: a leitura avança a passos largos, como é esperado de um bom livro policial, muito por conta da ânsia de saber a resolução desse mistério central. Além disso, Melchor se prova rapidamente como um personagem estranhamente cativante e querido.

Ainda que não esbanje simpatia, o protagonista de Terra Alta apresenta um passado curioso e com profundidade. É interessante, acima de tudo, notar a forma que passada e presente se cruzam, com motivações, emoções e sentimentos similares. O livro de Cercas acaba se tornando profundo e com boas camadas, não ficando restrito apenas em tradicionais tramas policialescas.


O final é o único momento que o livro dá uma derrapada mais evidente. Depois de uma boa revelação, com uma cena que mistura bem emoção com tensão, Cercas acaba se prolongando demais na explicação do crime — surge um personagem novo, explicações didáticas demais, muito blá-blá-blá. Corta um pouco do ritmo geral da produção a partir desse trecho cansativo.


No entanto, ainda assim, Terra Alta é uma surpresa agradabilíssima. Tenso na medida certa, com uma história muito bem contada por Cercas. É um livro par se distrair, se emocionar, sentir a tensão. Não revoluciona o gênero, tampouco traz coisas realmente novas para a literatura policial. Mas, convenhamos: sempre bom lermos um típico livro investigativo, não é mesmo?


0 comentário