• Matheus Mans

Crítica: 'Tigertail', da Netflix, é singela história sobre amor e família



É impressionante a capacidade da Netflix em lançar produtos diversos, em uma mesma semana. Só na última sexta-feira (10), por exemplo, o serviço de streaming lançou o mediano filme americano Um Amor, Mil Casamentos, o simpático francês Efeito Pigmaleão e o emocionante taiwanês Tigertail. Este último, sem dúvida alguma, foi o melhor dos lançamentos.


Na trama, acompanha-se a história de Grover. Desde quando era criança (Zhi-Hao Yang), quando morava com a avó numa plantação de arroz; passando pela juventude (Hong-Chi Lee), quando começa a entrar no mercado de trabalho e a entender os dilemas da vida adulta, financeira e até mesmo amorosa; e, por fim, já adulto e idoso (Tzi Ma), quando é afetado pelas dores de sua vida.


Dirigido por Alan Yang (de séries como The Good Place e Master of None), o longa-metragem se vale da história deste homem para exibir, ao longo de seus breves 90 minutos, a história de uma família. Ainda que Grover seja o protagonista absoluto, o personagem abre espaço para outras narrativas interessantes surgirem e fazerem com que Tigertail seja mais do que drama íntimo.


Há, numa primeira camada, os dilemas amorosos e financeiros de Grover, que vê sua vida passar pelos olhos. Há, também, o sofrimento silencioso de Zhenzhen (Kunjue Li/Fiona Fu), que se entrega num relacionamento que nunca quis. Por fim, há ainda, a história da filha de Grover e Zhenzhen, Angela (Christine Ko), que não consegue se conectar emocionalmente com seu pai.

Em camadas mais profundas, porém, Tigertail consegue ir além. Fala sobre cultura de Taiwan, machismo estrutural, distanciamento emocional, escolhas amorosas, vida sem rumo. Ufa!


É um mosaico de narrativas que, no final das contas, favorece o encontro e o reencontro, é claro, dessa família tão dolorida e fragmentada -- mesmo que a dor surja de coisas aparentemente pequenas, como um amor não correspondido, uma separação, um olhar pela janela do táxi, um beijo perdido. Yang, acima de tudo, quer explorar os efeitos das decisões no núcleo familiar.


Vale ressaltar, também, aspectos técnicos: a cinematografia de Nigel Bluck exerce força sobre a narrativa; e a edição é esperta ao resumir cenas de maneira inteligente, mesmo que picotada.


Ainda que o elenco esteja bem, com um Tzi Ma (A Chegada) convincente e profundo, há um problema de roteiro que acaba derrubando Tigertail. Afinal, com tantos arcos e histórias paralelas à principal, parece que falta desenvolvimento de algumas situações, de alguns dos personagens. A própria Zhenzhen aparenta ter uma história melhor do que é contado ali.


Além disso, por ser um filme muito íntimo, inspirado na história do próprio pai do diretor, há algumas ausências exageradas. Faltaram explicações para algumas passagens, alguns acontecimentos. Como respostas, sobram silêncios. Em alguns momentos, funciona. Em outros, fica um gosto de "como assim?". Parece que Yang não teve coragem, ou não quis, ir afundo.


Com isso, no fim do filme, há um certo sentimento de pontas soltas, de potencial não descoberto. Uma pena. Mas não dá para negar: o final é lindo, poético, revelador. Mostra o poder das pessoas em se redescobrirem, em se encontrarem novamente com seus filhos e familiares. Tigertail começa quase como uma fábula imaginativa. E termina como um sopro de realidade.


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