• Matheus Mans

Crítica: 'Tolkien' é cinebiografia banal e romantizada, mas interessante


Tolkien não gostava da Disney. Junto com o amigo C. S. Lewis, o autor de O Senhor dos Anéis não aprovou a forma como o estúdio tratou os anões na animação A Branca de Neve. Eles deveriam ser mais brutos, até mesmo mais feios. Décadas depois, ele ainda descascou Walt Disney pela forma como tratou P. L. Travers, a autora de Mary Poppins. Além disso, Tolkien não gostava muito de cinebiografias. Tanto que não queria algo com sua vida. Mas nada disso parece que importa mais, já que estreia nos cinemas nesta quinta, 23, Tolkien, longa-metragem que se debruça na juventude do escritor britânico.

Dirigido pelo finlandês Dome Karukoski (Tom of Finland), o longa-metragem acompanha a infância de J.R.R. Tolkien (Nicholas Hoult), quando ele precisa enfrentar a morte da mãe e, ao mesmo tempo, cria um forte vínculo com um grupo de garotos da região; e a vida de jovem adulto, quando é convocado para a guerra enquanto estuda em Oxford e se apaixona por Edith Bratt (Lily Collins), jovem órfã que divide a mesma casa que ele.

Essa, sem dúvidas, é a base da vida de Tolkien -- a infância como órfão, o grupo de amigos, a ida à Primeira Guerra Mundial, o estudo em filologia. No entanto, Karukoski pinta a história com tintas bem mais fortes. Enquanto biografias oficiais relatam que Tolkien teve um papel bem burocrático na guerra, o longa faz parecer que o britânico atuou no campo de batalha, em trincheiras, com armas na mão. Outra coisa: Edith era uma mulher do início do século XX e não tinha grandes aspirações. Se dedicava ao piano, como hobbie, mas não pretendia tocar em grandes espetáculos, como no filme.

Sem dúvidas, isso ajudou a fazer com que a família de Tolkien mostrasse reprovação sobre a produção. A trama, extremamente banal e genérica, faz de tudo para que Tolkien se transforme num herói de guerra e que usava tudo ao seu redor como inspiração para O Senhor dos Anéis -- a cena do dragão no meio da guerra é uma das coisas mais risíveis do cinema biográfico recente. Além disso, eles tentam tornar a vida do britânico bem mais emocionante do que era. Oras, ele era um professor universitário interessado em línguas. E ponto final. Não precisava viver grandes aventuras fílmicas pra se inspirar.

Assim, o roteiro de David Gleeson (Don't Go) e Stephen Beresford (Orgulho e Esperança) e a direção de Karukoski são os maiores problemas do longa. Carregam nas tintas quando não precisam e, de resto, não conseguem se destacar em nada. É mais uma das cinebiografias genéricas sobre grandes personalidades que circulam por aí, como A Teoria do Tempo e Jogo da Imitação. Vale pela personalidade, e não pelo filme em si.

O elenco, porém, é um destaque extremamente positivo. Nicholas Hoult (Mad Max: Estrada da Fúria) não é nenhum grande astro, mas faz seu papel corretamente. E não é fácil, sabendo das restrições da família e do caráter discreto que Tolkien sempre teve. Vai bem na maioria das cenas. O ponto principal do elenco é Lily Collins (Simplesmente Acontece), que consegue criar uma Edith vibrante e apaixonante -- por mais que não tenha nada a ver com o que é descrito nas biografias. Trabalho louvável, porém.

Assim, Tolkien não deve agradar os fãs do autor, que já leram biografias como J.R.R. Tolkien: O Senhor da Fantasia, publicado no Brasil pela DarkSide; e J.R.R. Tolkien: Uma Biografia, da HarperCollins. Afinal, muitas coisas ali não são críveis e não refletem exatamente a história de vida de Tolkien. Mas aos que não querem algo extremamente aprofundado, e que aceitam uma cinebiografia bem feitinha, redonda, sem grandes momentos. O elenco, aqui, salva. Se não fosse Hoult e Collins, seria um bomba total.

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