• Matheus Mans

Crítica: 'Tudo Acaba em Festa' mira na descontração e acerta no 'non-sense'


Quando se fala em comédias nacionais, principalmente na frente daqueles que julgam o cinema internacional como superior ao brasileiro, há sempre exclamações de injúria e desprezo. Afinal, pensa-se apenas no humor histriônico de Leandro Hassum, na superficialidade de Paulo Gustavo ou coisas do tipo -- cada um deles, porém, com suas qualidades e defeitos. Tudo Acaba em Festa, do "midas" André Pellenz (Detetives do Prédio Azul e Gosto se Discute), não aposta no óbvio e costumeiro para fazer rir. Ainda assim, erra a mão num roteiro bagunçado, óbvio e que acaba acertando no non-sense.

A trama de Tudo Acaba em Festa -- que tinha o título anterior de Festa da Firma -- conta a história de Vlad (Marcos Veras), o funcionário do RH de uma empresa de beleza que sugere ao seu chefe (Nelson Freitas) que seja feita uma festa de fim de ano para descontrair e melhorar o ânimo entre os colegas. É a chance de sua vida: afinal, não há perspectivas na carreira e o amor de sua vida, a colega de trabalho e secretária Aline (Rosane Mulholland), quer abandoná-lo pela falta de perspectivas. E pra fazer tudo isso, ele terá que convencer os colegas com a ajuda da estagiária (Giovanna Lancellotti).

A ideia é, de fato, original. Apesar de estar entranhada na cultura e nos hábitos do brasileiro, a chamada "festa da firma" ainda não tinha sido retratada de forma fidedigna no cinema nacional -- rolou algo de perto com a fraquíssima comédia Noite da Virada, algo com os estereótipos em Os Farofeiros e com o ambiente de trabalho caricatural na antiga série global Os Aspones; nada que juntasse os três pilares. E Pellenz faz bem isso até em certo ponto, mostrando relações entre colegas, algumas dinâmicas que geram interação com o público e boas participações de Nelson Freitas e Stepan Nercessian

No entanto, Pellenz, que também é roteirista, não consegue criar humor de forma sutil ou delicada, deixando que as situações falam por si só. Ainda que o diretor/roteirista tenha dito que construiu arquétipos e não estereótipos, em indagação feita pelo Esquina durante coletiva de imprensa, há clichês ambulantes ao redor de tipos humanos -- e o que é isso senão estereótipos, não é mesmo? Os funcionários da TI são nerds que não se relacionam com ninguém, a equipe de telemarketing é formada por robôs que falam apenas em gerúndio e por aí vai. São esterótipos que funcionam em alguns casos dentro da trama, mas que na maioria deles acaba caindo apenas no vazio.

Há algumas piadas que também passam a linha do aceitável e caem no insulto -- e isso não é ser politicamente correto, é ser justo. Há uma brincadeira envolvendo o cabelo da personagem de Giovanna Lancellotti que é uma piada tão ultrapassada que dá vergonha. Nem Os Trapalhões, que tinha um humor bem solto, fazia mais isso em seus anos finais. Há a inserção de um merchan com os lanches do McDonald's que, além de artificial, tenta emplacar uma piada realmente vergonhosa -- que tenta se desconstruir no final, mas que só serve para mostrar como aquele roteiro é ultrapassado e fraco.

O elenco, porém, ajuda a elevar a qualidade geral. Marcos Veras (O Filho Eterno) até é esforçado, mas não vai pra frente e não consegue fazer o humor que Pellenz tenta. Fica só na sugestão. Mulholland (Carrossel) está bem, como sempre, mas não tem muito o que fazer com seu papel. Os únicos que conseguem produzir risos genuínos são Giovanna Lancellotti (Tudo por um Pop Star), que tem se revelado na comédia e nos filmes leves; Stepan Nercessian (Chacrinha), em rápida participação; e Nelson Freitas (Zorra), que tem um humor histriônico que encontra seus momentos no filme. O resto é funcional.

Tudo Acaba em Festa serve, então, como um registro cultural da "festa da firma" e ganha pontos pela sua originalidade e pelo bom elenco de apoio -- que tem, ainda, a presença ilustre e surpreendente de Amaury Jr. Mas, como filme, a qualidade é baixa: só dá pra se divertir com o humor completamente sem sentido que é criado em sua conclusão, como no recente Duas de Mim, onde o absurdo da situação toma conta. Mas as piadas forçadas de Pellenz no roteiro e, pior, a negação de que está trabalhando com estereótipos deixa o filme fraco, infeliz e sem muito propósito. Talvez fosse melhor assumir o tom "farofa" e partir para o abraço. O riso, dessa maneira, iria fluir melhor.

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