• Matheus Mans

Crítica: 'Tully' é realista e ousado retrato da maternidade


Não é a primeira vez que o cineasta Jason Reitman fala sobre maternidade em seus filmes. Seu primeiro grande sucesso na carreira -- ainda que injusto, já que Obrigado por Fumar é melhor -- foi o drama Juno, que mostra os efeitos de uma gravidez indesejada durante a adolescência. Agora, ele volta a martelar no tema com o novo Tully, que chega aos cinemas nesta quinta, 17.

Na história, Marlo (Charlize Teron) é mãe de um casal e ainda está esperando um terceiro filho. Só que as coisas não vão muito bem. O menino conta com algum tipo de autismo e não é bem aceito na escola. O marido (Ron Livingston) trabalha e não ajuda muito em casa, ficando mais preocupado com os jogos de videogame e a preocupação do que comer na janta.

Reitman, que é perito em desenvolver histórias banais para ampliá-las em bons dramas intimistas, cria a partir disso uma história interessantíssima. Poucas vezes a maternidade foi tão bem representada nos cinemas e de forma tão honesta e original -- com exceção, talvez, do irregular Por uma Vida Melhor. Difícil não gerar identificação por quem já passou por isso.

Seja as dores nos seios por conta do leite, o caos para levar as crianças para a escola, as críticas sobre o corpo, os problemas na escola, a relação com o marido distante, o sexo. Tudo está ali retratado e escancarado, enquanto, na maioria das vezes no cinema, é um tema deixado à margem.

Parte desse sentimento vem do ótimo roteiro de Diablo Cody (de Juno e do vindouro Barbie), que consegue criar um bom ritmo ao filme. Começa cheio de momentos cômicos, passa pelo estranhamento com a chegada da babá Tully (Mackenzie Davis) e vai até um desfecho pouco convencional e que surpreende, trazendo à tona um assunto pouco tratado sob esse tipo de perspectiva.

O único problema é que, para chegar nesse final, Cody arca com alguns sacrifícios narrativos e que, num primeiro momento, não fazem muito sentido. São cenas e sequências -- ou até diálogos -- que te tiram da narrativa e faz questionar o que está sendo contado na tela. Quando Cody e Reitman amarram com o ótimo final, tudo faz sentido. Só que, pra chegar aí, a dispersão já ocorreu.

Só que este não é um ponto tão problemático. Afinal, além da honestidade do tema, a boa história e a excelente direção, o filme conta com atores inspiradíssimos. Charlize Theron, que já trabalhou com Cody e Reitman em Jovens Adultos, está divina. Mistura a dor e a comédia involuntário com precisão. Mackenzie David (Perdido em Marte) traz uma leveza às cenas que alivia a tensão e diverte. Mark Duplass (Complicações do Amor) e Ron Livingston (Lucky) estão funcionais.

Ao final de Tully, é impossível não ter a sensação de que foi visto um bom filme. Ainda que ele perca a audiência em seu terço inicial, elenco, roteiro e direção trabalham para criar um filme original em sua temática, interessante em seu desenrolar e inventivo em sua conclusão. Sem dúvidas, um dos destaques da boa carreira de Reitman e uma das boas surpresas de 2018.