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  • Matheus Mans

Crítica: 'Veneza' tem sua parcela de beleza, mas parece perdido no tempo


Miguel Falabella fez sua história no teatro e na televisão, mas ainda não tem um currículo extenso nos cinemas. Dirigiu Polaróides Urbanas em 2008, depois escreveu o roteiro de Sai de Baixo: O Filme e, agora, volta para trás das câmeras com Veneza, longa-metragem adaptado de uma peça do argentino Jorge Accame e que chega aos cinemas já a partir desta quinta-feira, 10.


A trama, assim como o superior Paraíso Perdido, é uma teia de personagens que nasce em prostíbulo. A história principal é a da anciã Gringa (Carmen Maura), que sonha em visitar Veneza para rever um antigo amor. Mas ainda tem a relação de Madalena (Carol Castro) com uma mulher transexual, o faz-tudo (Eduardo Moscovis), a líder do grupo (Dira Paes) e por aí vai.


O primeiro grande problema, que geralmente acomete essas histórias recheadas de personagens, é a diferença gritante entre as subtramas. A história da Gringa é a que mais tem tempo de tela, mas é a mais desinteressante. A relação entre Madalena com a mulher trans ainda não assumida é o ponto alto da narrativa, mas acaba tendo bem menos atenção do filme.


Enquanto isso, o roteiro de Falabella perde tempo com personagens que nada acrescentam. Danielle Winits (Ninguém Entra, Ninguém Sai), por exemplo, faz a personagem de uma prostituta analfabeta e sem perspectivas. Até dá para entender a ponta de crítica social aí, mas nada que vai além. Já Maria Eduarda de Carvalho é descartada em duas cenas como uma mulher doente.

Teria sido muito melhor, e bem mais proveitoso, se Falabella tivesse focado apenas nas histórias centrais, sem tantos devaneios. Além disso, apesar da qualidade inegável no design de produção de Veneza, há momentos de puro exibicionismo técnico. Uma conversa entre as prostitutas em uma mesa, por exemplo, tem uma câmera que gira sem parar. Pra que? O que isso agrega?


O grande problema de Veneza, porém, está na essência da história. Falabella trata a história quase como um mundo colorido. Elas fazem sexo em troca de uma máquina de som com sorriso no rosto, entre piadas. São exploradas, mas tudo bem. É uma romantização ultrapassada do que é ser prostituta. Uma história dessa funcionaria há 10, 15 anos. Hoje, em 2021, não mais.


Os pontos positivos ficam com as atuações (Castro está magnética, Maura se entrega e o jovem Caio Manhente é um acontecimento). Além disso, a parte final, apesar de exageradamente lenta, é bonita. Mostra como o teatro, o cinema e o circo podem ser uma porta para a imaginação, para uma viagem. É algo que consegue tirar um sorriso do rosto do público, apesar dos pesares.


Com isso, Veneza é um filme que tem sua beleza, sua graça, mas que acaba perdido no tempo. De novo: seria uma maravilha se fosse lançado há alguns anos, quando algumas problematizações não haviam surgido. Mas, ainda assim, dá para se encantar com algumas das jornadas e, se não ligar exatamente para os problemas, viajar na história de fantasia de Veneza.

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