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  • Matheus Mans

Crítica: 'Virar Mar' reflete sobre relação com a água em trama enfadonha


De boas ideias, o inferno está cheio. Afinal, ainda mais no cinema, não basta ter uma única boa sacada para achar que tudo está garantido. É preciso de base, de sustentação, de boa direção, de roteiro afiado, boas atuações ou entrevistas. Sem isso, a ideia fica apenas no ar e nunca encontra o seu verdadeiro ponto de apoio. É justamente isso que acontece com o filme Virar Mar.


Dirigido pela dupla Danilo Carvalho e Philipp Hartmann, mas roteirizado por este último, o filme tem uma ideia inicial boa e bem simples: falar sobre a relação das pessoas e da sociedade como um todo com a água. No Brasil, falta água; na Alemanha, sobra. No sertão nordestino, as pessoas lutam para não morrer de sede. Em uma região alemã, para não morrerem afogadas.


É nessa dicotomia de cenários que Virar Mar busca construir sua poesia. Inicialmente, acerta. É interessante ver o trabalho de edição experimental e criativo do filme, que vai costurando imagens que se contradizem. Na brincadeira de ficção documentada (ou documentário ficcional), Virar Mar confunde os espectadores em vários níveis. O que é real, o que é inventado?

Nessas confusões, que vão embaralhando ainda mais essa dicotomia entre as diferentes realidades de dois países, o longa-metragem acerta. Mostra que tem uma ideia muito boa, com uma visão de mundo ampla em que as verdades se contradizem. No entanto, não passa disso. Virar Mar não encontra uma maneira de fazer com que o roteiro avance, traga mais ideias.


Os questionamentos, afinal, param nesse início. Não vão além. Muitas cenas, principalmente as ficcionais com atores representando principalmente o represamento de uma área, ficam sobrando. Parece que os diretores ficaram empolgados com algo que tinham para falar, mas não souberam como trabalhar o tema para fazer com que as coisas avançassem como deveria ser.


Fica a sensação de que algo está faltando. Você chega ao final do filme sem sair do lugar. Ok, há uma diferença brutal entre o trato da água no Brasil e na Alemanha. Mas e aí? Virar Mar não traz reflexões, só perguntas amplas demais. Tenta ir longe demais com um experimentalismo inteligente, mas morre na praia. A sensação é de desperdício -- de tempo, de ideia e de água.

 

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