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  • Matheus Mans

Crítica: 'Você Não Estava Aqui' é filme potente sobre neoliberalismo


Muitas pessoas não gostam do cinema de Ken Loach. Dizem que é pessimista demais, não traz escapes para uma sociedade doente. E de fato: o cineasta inglês, principalmente em seus últimos trabalhos, tem apostado numa crítica pesada, sem afagos na cabeça dos espectadores. Foi assim no ótimo Eu, Daniel Blake, de 2016, e é agora no excepcional Você Não Estava Aqui.


Depois de uma rápida passagem pelos cinemas, por conta da crise de coronavírus, o novo longa-metragem de Loach chega em plataformas digitais. E não podia ser num momento mais oportuno. Afinal, na trama, acompanhamos a vida de Ricky (Kris Hitchen), um homem desempregado que vê como única saída a informalidade. Por isso, abraça feliz a "uberização".


No caso, porém, o protagonista decide trabalhar numa plataforma de entregas. Compra uma van, entra numa cooperativa -- que diz não ter vínculos nenhum com Ricky, que é tratado como um empreendedor -- e começa a trabalhar. Quanto mais horas de trabalho, mais dinheiro. E isso significa menos momentos com a esposa Abbie (Debbie Honeywood) e com os dois filhos.


Como grande complicador, porém, está uma situação envolvendo o filho mais velho do casal, Seb (Rhys Stone). Rebelde e muito inteligente, ele basicamente desiste de seguir alguma "profissão séria" -- na percepção dos pais. Prefere viver nas ruas, com amigos, grafitando muros e furtando algumas coisas. Aí vem o dilema: como trabalhar 12 horas e cuidar do filho rebelde?

Loach não deixa dúvida para o espectador. Seu ódio pelo neoliberalismo e por esse processo de "uberização" -- que coloca o trabalhador na labuta por horas seguidas, sem qualquer tipo de contrapartida, exigindo qualidades e processos de um contratado. É cruel ver o sistema pelos olhos atentos e críticos do diretor inglês. As coisas são mais duras, mais sombrias, mais tristes.


Hitchen, estreante em longas, ajuda na construção dessa visão. Com uma dor latente em seu olhar, o ator constrói um personagem extremamente realista. Além disso, é interessante notar o papel de Seb, bem interpretado por Stone. Ele é rebelde, contestador. Talvez até fruto de um pensamento mais jovem do que Loach reproduz. Mas será que é o caminho? Ou é problema?


E no final das contas, as perguntas pipocam na tela. Isso é um tipo de trabalho aceitável? É algo que a sociedade deve tratar como solução ou como doença de um sistema fadado ao fracasso completo? É triste ver a última cena do longa, uma das mais tristes e urgentes do cinema desse século. E é impossível, ainda por cima, não traçar paralelos com a crise do novo coronavírus.


Afinal, quantos outros Rickys existem por aí, se arriscando e sobrevivendo para pôr o pão na mesa? Talvez seja a hora de ouvir as palavras de Ken Loach e colocarmos um basta no sistema.

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