• Matheus Mans

Crítica: 'Vou Nadar Até Você' é poesia que se perde na euforia


Ofélia (Bruna Marquezine) é uma garota que procurou por seu pai durante toda a vida. Apesar de saber a identidade paterna, nunca teve a oportunidade de conversar com ele, compreender os motivos de seu afastamento e se aprofundar na sua vida. As coisas mudam de figura, porém, ao descobrir que o pai está em Ubatuba, litoral paulista, promovendo uma espécie de refilmagem.


A garota, então, faz o impensável: sai de Santos, cidade onde mora, e decide ir a nado até o encontro do seu pai. Isso mesmo: Ofélia decide cobrir mais de 200 quilômetros pelo mar, a nado.


Esta é a trama de Vou Nadar Até Você, filme de estreia de Marquezine nos cinemas e também de Klaus Mitteldorf como diretor. Se equilibrando numa metáfora fraquíssima, o filme é pura poesia. E isso não é um elogio. Vou Nadar Até Você abandona qualquer tipo de realidade ou de premissa natural para abraçar uma trama sem pé nem cabeça, que não cria vínculos no cinema.


Afinal, veja só: por mais que a jornada de Ofélia seja nobre, como comprar a ideia de que uma pessoa está atravessando o mar a nado para encontrar um familiar que procurou durante toda a sua vida? Carro, ônibus, bicicleta, navio, barco. Qualquer outra coisa seria mais plausível. Mas os roteiristas Mitteldorf e Nina Crintzs (A Noite da Virada) abraçam o absurdo pra gerir poesia.

O espectador fica descrente logo no começo. A metáfora usada para sustentar a poesia não funciona -- uma coisa de água, paternidade, maternidade; uma bagunça. E a personagem vai caindo em descrença ao longo dos 107 minutos de projeção. O filme não se faz compreender, a personagem não é crível, a situação não é emocional e nem cria laços com o seu público.


O visual até é interessante e Marquezine está bem. Mas Klaus não sabe aproveitar o potencial de seu longa-metragem. A nudez da atriz é explorada ao máximo e o visual é perdido em cenas que não chegam a lugar algum, ao invés de trabalhar em prol da poesia e da metáfora narrativa. Tudo está estagnado, como uma poça de água. O único movimento é o mar que Ofélia enfrenta.


Por fim, a sensação é de que o roteiro se confunde o tempo todo. Usa uma estrutura batida, de road movie, para tentar encapsular essa poesia tão desejada. As coisas ficam ainda mais estranhas, desconfortáveis e ininteligíveis. Não dá, sinceramente, pra entender o que o diretor e a roteirista queriam fazer com essa história. O que queriam contar? Qual o sentido de tudo?


São perguntas que martelam até o final e ficam sem respostas, mesmo quando os créditos tomam conta da tela. É um filme confuso, indeciso. E que, se fosse Ofélia, morreria ali, na praia.

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