• Matheus Mans

Crítica: 'Ya No Estoy Aqui', da Netflix, é delicado drama mexicano


Que grata surpresa é o drama Ya No Estoy Aqui, que chegou ao catálogo brasileiro da Netflix nesta quarta, 27. Com clima independente, bem a cara de festivais de cinema, o longa-metragem acompanha a trajetória de Ulises (Juan Daniel Garcia Treviño), o líder de uma gangue da periferia mexicana que, após entrar em conflito com um rival, precisa fugir pros EUA.


A partir daí, o cineasta e roteirista Fernando Frias (de Rezeta) mergulha na dicotomia que passa a existir na vida desse rapaz. Afinal, de um lado, os tempos de liberdade e liderança no México, quando comandava seu pequeno grupo e dançava suas músicas. Do outro, um tempo de medo e de desesperança enquanto fica em solo americano, buscando achar uma forma de sobreviver.


É interessantíssima, principalmente, a forma que Frias encontrou de contar essa história. Não há banalizações, não há julgamentos. O que é feito aqui é a transposição de uma realidade cruel, e um tanto quanto melancólica, sobre a vida de um grupo de mexicanos. Poderoso imageticamente, o filme deixa para o espectador a responsabilidade de sentir e entender aquilo.


Aos poucos, e sem Treviño exagerar no melodrama, o filme vai se ajeitando e trazendo uma potente mensagem social para quem está assistindo. É interessante como a vida do rapaz passa por uma transformação violenta e perigosa, mostrando como as realidades se alternam -- mesmo quando você, simplesmente, atravessa uma fronteira. Os sonhos, agora, já são outros.


Além disso, o roteiro de Frias alterna inteligentemente entre focos e premissas. Ainda que o fio narrativo seja a transformação na vida de Ulises, Ya No Estoy Aqui não se limita a isso. Fala também sobre tribos musicais, sobre periferia mexicana, sobre a presença do estrangeiro nos Estados Unidos, faz acusações sociais. É um compilado que, de alguma maneira, se torna único.


Outro grande destaque fica a cargo do protagonista. Como já ressaltado, ele nunca avança demais no drama de seu personagem, nem exagera na atuação. No entanto, é absolutamente palpável a transformação de seu olhar, de sua postura e de suas falas entre um país e outro. É uma daquelas atuações comoventes, que parecem simples, mas que carregam muito por trás.


No final, Ya No Estoy Aqui causa um conflito de sentimentos e emoções interessante. Por um lado, é difícil não sair abalado e melancólico com o que é contado. Por outro, dá vontade de dançar a música celebrada pelo grupo e conhecer mais dessa cultura. É um sentimento conflitante. E que, no final das contas, acaba provando que a reflexão do filme é pertinente.

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