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  • Matheus Mans

Crítica: Yorgos Lanthimos faz seu filme mais acessível com 'A Favorita'


O grego Yorgos Lanthimos não faz cinema de fácil absorção. Seu primeiro voo solo na sétima arte, Kinetta, é um filme enfadonho de tão metafórico. Dentes CaninosAlpes O Lagosta são as obras de maior relevância e que possuem uma alegoria estrutural, sustentando o filme todo em crítica social. O Sacrifício do Cervo Sagrado, seu filme mais recente, volta a se valer de metáfora intrincada à trama, fazendo paralelo com contos gregos. Agora, ele pousa em um terreno mais real e seguro para contar a história de A Favorita.

O longa-metragem se passa no século XVIII, nos bastidores do reinado de Anne (Olivia Coman), na Inglaterra. Repleta de problemas de saúde e insegurança, ela precisa da ajuda da amiga Lady Sarah (Rachel Weisz) para governar em seu nome e tomar algumas das decisões mais importantes do reino. No entanto, o equilíbrio da amizade das duas é abalado quando uma nova empregada, Abigail (Emma Stone), chega à corte e começa a conquistar a confiança e lealdade da monarca. A partir daí, intrigas e ciúmes passam a rondar o reinado e a ameaçar influências políticas tradicionais e estruturais.

Ao contrário de seus outros filmes, não é a metáfora ou a alegoria que reina em A Favorita. Primeira produção de Lanthimos a não ser co-escrita por ele mesmo, o longa-metragem trabalha no terreno da realidade. Aqui, ele eleva um aspecto de seus outros filmes -- a exaltação do ridículo de cada um -- ao máximo, tornando-o um drama de época misturado com uma comédia de tipos humanos que exala comicidade. Em um primeiro momento, é natural até mesmo estranhar. É um Lanthimos novo, desconhecido do público, mas que se mostra tão talentoso quanto em O Lagosta Dentes Caninos.

Afinal, por mais que a história seja simples, real e direto ao ponto, há todo o charme já conhecido do cineasta na produção. Além da exaltação do ridículo, os ângulos de filmagem e a câmera, que muitas vezes recorre ao estranho e interessante "olho de peixe", trazem particularidades à história. Ponto para o diretor de fotografia, Robbie Ryan. A trilha sonora original, cheia de pausas e recorrência, causa forte estranhamento, como também é de costume. E que figurino! Sem dúvidas, Sandy Powell já pode ir reservando um espaço na prateleira de casa para a estatueta do Oscar.

Só que há dois aspectos que se destacam ainda mais do que a direção e técnica: o roteiro e as atuações. A história, escrita pela estreante Deborah Davis e por Tony McNamara (A Grande Virada), é dividida por capítulos, que vão se amontoando e pondo novas percepções sobre a trama. Acentuada pela direção precisa de Lanthimos, o filme vira um espetáculo do século XVIII -- para quem se cansou de histórias sobre reinados ingleses e seus bastidores, como A Outra, não desanime; o filme tem outra pegada.

O único grande erro da narrativa é o ritmo, que acaba sendo demasiadamente lento algumas vezes, e um excesso ligeiro de duração -- ao invés de duas horas, o filme poderia ter, tranquilamente, 1h45. A transição entre segundo e terceiro atos falha.

Já as atuações são a cereja do bolo. Olivia Coman (que vai substituir Claire Foy em The Crown) consegue entregar uma personagem extremamente real e falível, ainda que cheia de problemas cômicos. Deve ter uma indicação ao Oscar de Atriz Coadjuvante. Rachel Weisz (Desobediência) também acerta na condução de sua personagem, apesar de não brilhar. Quem rouba a cena, de fato, é Emma Stone (La La Land). Que atriz! Ela passa todas as emoções em tela e, assim como Florence Pugh no recente Lady Macbeth, vai entregando suas emoções aos poucos. Vai aumentar a briga pelo Oscar.

A Favorita é um filme pouco convencional -- tanto da carreira de Lanthimos, acostumado com maiores explosões metafóricas e que aqui entrega o mais acessível de sua carreira, quanto no tema, que pende sempre para uma condução mais racional e convencional. Mas é um filmaço! Bem conduzido, bem produzido e com uma entrega de suas atrizes principais que emociona e arrepia. Deve fazer carreira na temporada de premiações e, principalmente, despertar o interesse de pessoas para a filmografia de Yorgos. Bom passaporte para um cinema "cabeça", complexo e metafórico. Bom para todos.

* O filme foi assistido durante a cobertura da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.