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  • Matheus Mans

Crítica: 'As Garotas de Cristal', da Netflix, mostra limites do corpo em filme genérico


Filmes sobre balé, ou até mesmo a dança no geral, mostram essa arte levando o corpo ao limite, ao máximo de esforço que podem aguentar. Foi assim com Cisne Negro, com o terror Suspiria, com o desconfortável Clímax e o bonito drama Pássaros da Liberdade. Por isso, não é surpresa alguma quando As Garotas de Cristal, original da Netflix, segue justamente por esse caminho.


Dirigido por Jota Linares (do mediano Quem Você Levaria para uma Ilha Deserta?), o longa-metragem fala sobre a relação de duas bailarinas: Irene (María Pedraza) e Aurora (Paula Losada). A primeira é escolhida como a bailarina principal da companhia após o suicídio de uma das colegas. A outra, com marca de nascença no rosto, parece estar sempre aflita, com medo.


A partir disso, elas começam a desenvolver uma relação não só de amizade, mas de apoio. Uma suporta a outra, uma dá força para a outra. A partir disso, As Garotas de Cristal vai desenvolvendo não só a amizade de Irene e Aurora, como também o papel de cada uma na companhia de dança. Uma caminhada narrativa que, no final das contas, se mostra dicotômica.


De um lado, afinal, elas mostram o que há no íntimo de cada uma delas quando estão juntas, e apenas as duas. Seja na conversa na beira de uma cachoeira, em uma festa, na casa uma da outra. São nesses momentos que elas verbalizam suas fragilidades, a relação com os pais, com o entorno e, até mesmo, os sentimentos que nasceram quando a colega cometeu suicídio.

Já na companhia, Linares se preocupa em colocar significado na forma que se portam, os medos que surgem em determinados passos e como a coreografia impacta no íntimo dessas duas personagens -- isso sem falar de embates de dança, de balé, que surgem aqui e ali, principalmente contra a garota que namorava com Maria, que se suicidou, e não aceita Irene.


Apesar disso tudo ter relevância e interesse, além de boas atuações principalmente da belíssima e talentosa María Pedraza (a Allison Parker de La Casa de Papel), As Garotas de Cristal recai na mesmice do tema. Os limites do corpo, o medo do futuro, as relações problemáticas que nascem do balé, assim como as amizades na dança. Tudo isso já foi dito ou tratado antes.


Sem falar que Linares, em muitos momentos, reforça o óbvio em cenas que não funcionam. Além disso, é um filme deveras pesado: tem mais de duas horas, sem razão de ser, e um excesso de tramas que mostra como o roteiro de Linares e Jorge Naranjo tinha autoconsciência das limitações narrativas da história e, com isso, apostou numa diversidade sem razão de ser.


As Garotas de Cristal tem seus acertos, como as boas atuações e cenas de dança belíssima -- ainda que uma ou outra fique perto do brega, como a feita com excesso de efeitos em um lago. No entanto, falha ao tatear no escuro em busca de novas histórias em uma narrativa que já está batida e usada em excesso. Vale assistir apenas se tiver paciência de passar pelo óbvio.

 

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