• Matheus Mans

Djavan traz amor, política e natureza no disco 'Vesúvio'


Se qualquer outra pessoa cantasse os versos e as notas das treze faixas do disco Vesúvio, de Djavan, ainda daria para reconhecer a mão do cantor e compositor alagoano naquelas canções. Afinal, é Djavan puro. Ritmo cadenciado, letras que se apresentam sempre imprevisíveis e uma poesia muito própria, muito particular. Só que dessa vez, nesse 24º disco de estúdio, há uma aproximação curiosa de temas políticos, antes tão raros em sua obra, que passa a se misturar com a costumeira poesia, o amor, exaltação da natureza e do belo. Um álbum diferente, mas igual ao Djavan já conhecido.

A música que abre os trabalhos é, justamente, a que dá nome ao disco. Vesúvio, com um violão bem marcado e um ritmo que lembra o flamenco, parece pronta para se tornar mais um marco na carreira do cantor. Tem todos elementos que Oceano, Sina e Eu Te Devoro, por exemplo, apresentaram em outros tempos. Além disso, é uma boa introdução ao que vem pela frente: uma mistura bem pensada e dosada do drama e da comédia, da tristeza e da alegria. Como a maioria das músicas de Djavan. Como a próprio vulcão Vesúvio, que redesenhou a Europa após erupção. Drama e beleza juntos.

Algumas canções, porém, falham em perpetuar esse sentimento ao longo do álbum e, muito menos, produzir um clima "pop", como o próprio compositor disse que queria.

A terceira faixa, Dores Gris, é a que mais remete ao "Djavan raiz" e, ainda por cima, faz um interessante antagonismo com "amores gris", verso da canção Nem Um Dia. Há uma volta de Djavan ao samba em Orquídea, sexta faixa, mas a letra é deveras complexa para conseguir extrapolar do próprio álbum. Falta o apelo pop que o cantor disse que se desafiou a fazer. Djavaneou, como diria a outra canção. O mesmo vale para Madressilva, que se torna melodiosa demais e parece não conseguir deslanchar nos objetivos gerais do álbum. A força do Vesúvio se perde, ainda que não seja ruim ou decepcionante.

A força do álbum, então, fica concentrada principalmente na faixa-título e em outras duas canções excepcionais: Solitude, que tem um balanceado que fica na cabeça e que possui um tom político curioso; e na deliciosa Entres Outras Mil. Esta última tem uma das melodias mais ricas e interessantes do trabalho recente do artista, trazendo uma delicada brincadeira com notas. A letra, que remete à força da natureza, causa um impacto estranho e inesperado, causado pela já citada imprevisibilidade das rimas e brincadeiras gramáticas. É gostosa, sutil e quase uma complexa canção de ninar.

Vale destacar também um aspecto dançante do disco de Djavan, presente na surpreendente Um Quase Amor, com elementos sonoros inesperados, e que dá a deixa para a faixa bônus Esplendor, em parceria com Jorge Drexler. É a versão espanhola de Meu Romance, uma mistura de balada com bolero que traz alguns bons elementos da química musical de Djavan, mas que falta em intensidade. Mãos Dadas e Viver é Dever também trazem aspectos pops almejados por Djavan, mas que não tomam conta da canção como um todo. Sobre Viver é Dever, aliás, vale ressaltar a força de alguns de seus versos, que parecem como uma lição de Djavan para si mesmo. É interessante.

Vesúvio não é um álbum completamente coeso do músico alagoano. Há uma clara percepção de que Djavan quis falar sobre tudo e nada ao mesmo tempo: amor, política, natureza. E de todos os jeitos possíveis, indo do samba ao dance, do pop ao lírico. Não é uma falha, obviamente, dada a complexidade musical da obra do cantor e compositor. Mas, daqui, saem apenas algumas grandes canções e que, de alguma forma, devem se perpetuar em sua discografia, como Vesúvio, Solitude e Entre Outras Mil. De resto, fica mais uma boa incursão para dentro da mente criativa desse artista ímpar da MPB.

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