• Matheus Mans e Bárbara Zago

Crítica: ‘Dunkirk’ é espetáculo cinematográfico, mas falta empatia


Vamos deixar de enrolação: Dunkirk é um espetáculo visual. É cinema levado ao máximo. Você sai da sessão sentindo que viveu a guerra. Uma sensação difícil de ver com frequência na telona nos últimos tempos, que está vivendo apenas de genéricos e remakes. Até por isso, Dunkirk está sendo tão louvado por crítica e por público. Fez o que muitos filmes deveriam fazer. Pena, porém, que não seja perfeito por não realizar um aprofundamento humano com as personagens.

O diretor Christopher Nolan conta a história da batalha de Dunkirk, que marcou o começo da Segunda Guerra Mundial. Nela, cerca de 400 mil soldados das Forças Aliadas ficaram encurralados pelo exército alemão numa pequena cidade marítima. Lá, o desespero tomou conta. Afinal, não tinha como batalhar, já que eram alvos fáceis para o inimigo, e não possuíam rota de fuga, já que navios ingleses não poderiam ir até lá para resgatá-los.

Para tecer todos os lados desta batalha, Nolan ainda conta a história a partir da ótica de soldados encurralados, de pilotos de caças ingleses e de uma família que pega o seu barco para tentar resgatar pessoas presas na cidade. Assim, sua câmera parece uma mosca que trafega em todos os lados da equação, mostrando como a batalha deverá culminar dali alguns instantes. É um roteiro inteligente, que usa de várias pequenas situações para que seja composto um quadro mais amplo.

Além disso, a direção de Nolan é a protagonista da trama: quase documental, ela faz com que o espectador se sinta no epicentro da guerra -- algo visto recentemente apenas em O Filho de Saul, drama húngaro de 2015. A sonoplastia e a trilha sonora, composta por Hans Zimmer (Interestelar e Gladiador), também ajudam a deixar o espectador imerso na trama e no clima da guerra. Impossível sair da sessão sem estar um pouco atordoado. Sem dúvida, vai levar o Oscar de melhor mixagem e edição de som.

No entanto, com tanto esmero na produção, o filme se perde um pouco na história. Ainda que o roteiro ganhe pontos por conseguir juntar, de maneira criativa, três tramas sem uma relação aparente, ele falha em não se aprofundar em história alguma. Usando um tipo de artifício visto em filmes recentes, como Até o Fim, Nolan decide não contar a história de ninguém ali. Mal sabemos seus nomes, tampouco sabemos as histórias de suas vidas ou o que eles fizeram pra chegar ali. Nem os atores tem espaço para desenvolver suas personagens.

Isso, é claro, é algo pensado por Nolan. A guerra move batalhões amorfos, que não se preocupam com o indivíduo. São dezenas de pessoas morrendo e nenhuma história para contar do que aconteceu antes da vida deles no campo de batalha. E este artifício é uma faca de dois gumes: enquanto mostra a guerra em sua face mais cruel, dificulta o processo de humanização. Ainda que sejam pessoas sofrendo ou até morrendo, a empatia é genérica e sem direção.

Com isso, Dunkirk perde pontos. Ainda que emocione, é um sentimento genérico, que não é direcionado para ninguém em especial, pensando apenas em ingleses numa batalha de 70 anos atrás. O impacto do filme, então, acaba sendo desacelerado e a emoção é freada por conta deste estilo documental. A falta de sentimentos, porém, não atrapalha a experiência como um todo: é impactante ver as cenas de batalha, sentir a voracidade de uma guerra e ouvir os sons do momento.

Dunkirk, no final, nem parece um filme de Nolan: é curto, não tem reviravoltas aos montes, nem um final aberto. Além disso, peca na criação de um vínculo humano, deixando-o ser extremamente documental. Ainda assim, porém, é um filme grandioso, que reinventa todo o gênero de guerra e que deve deixar a audiência surpresa e impactada pelo que assiste na telona. Aliás, recomendado assistir na maior tela que você encontrar. Sem dúvidas, vai valer o preço do ingresso.

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