• Matheus Mans e Bárbara Zago

Em São Paulo, Chico Buarque faz show forte, mas sem teor político


Seis anos separam a última apresentação de Chico Buarque em São Paulo do seu recente show Caravanas, que concluiu seu primeiro final de semana de apresentações na cidade no último domingo, 4. Nesse período, de tudo um pouco aconteceu, mas o principal foi que o Brasil entrou numa forte crise política e, de algum modo, colocou o compositor como uma das principais figuras do movimento militante contra o atual governo e em defesa de Lula e Dilma.

Essa reafirmação de Chico como figura política, porém, não deu as caras no show do cantor no último domingo. Ainda que a plateia tenha gritado “Fora, Temer!” em algumas ocasiões, o carioca apenas ignorou os protestos e, em apenas uma única vez, esboçou um sorriso com a força dos gritos. Aliás, silêncio foi o que imperou em seu show: Chico entrou mudo e saiu calado do palco. Apenas algumas palavras de agradecimento e nada mais. Claramente, não queria estar ali.

Mas não tem problema. Ele compensa o silêncio nas palavras com boa música e poesia. Começou com o pé direito com a animada Minha Embaixada Chegou, de Assis Valente, já dando o tom do show. Depois emendou com o samba Mambembe e uma versão nova e atualizada de Partido Alto -- um momento, aliás, que Chico dá uma leve alfinetada quando repete, várias vezes, que está de saco cheio. E ainda entregou uma boa releitura da clássica Iolanda.

Depois o show seguiu como uma valsa: dava dois passos em boleros e jazz para depois voltar para sambas e músicas mais animadas. Canções de protesto, nenhuma. Nem Apesar de Você, Vai Passar ou Cálice. Chico, apesar dos pesares, parece estar numa fase mais romântica de sua vida e prefere priorizar as declarações de amor como A Moça do Sonho, Blues pra Bia e a polêmica Tua Cantiga, ovacionada após uma tentativa frustrada de Chico interagir com a plateia.

Outro destaque é que Chico, que cantou 30 canções, passeou em todas possibilidades da música brasileira: além de visitar seu repertório, ele também fez homenagens à Tom Jobim (Retrato em Branco e Preto e Sabiá), Edu Lobo (A História de Lily Braun) e Cristóvão Bastos (Todo o Sentimento). Também não esqueceu de dar espaço para homenagear seu neto -- e filho de Carlinhos Brown --, que compôs a boa e divertida Massarandupió. Tem futuro o tal Chico Brown.

Foi estranho, porém, como a canção Caravanas foi recebida. Melhor de seu último álbum, é a música mais política de Chico em anos e prometia ovações e gritos desenfreados contra o presidente Michel Temer. Não aconteceu. A plateia reagiu de maneira fria à canção e, ao final, aplaudiu o artista por alguns segundos a mais que o convencional. Até ele deve ter estranhado, já que Tua Cantiga foi muito mais bem recebida e cantada por mais pessoas. Vai entender...

O ápice do show, porém, foi no final quando a plateia já se aglomerava na frente do palco e Chico, descontraído, ameaçou dar uma “sambadinha” com um chapéu Panamá. Depois, foi só emoção na conclusão com Geni e o Zepelim -- cantada a plenos pulmões pela audiência -- e Paratodos, que encerrou a apresentação com Chico entoando o clássico verso “sou um artista brasileiro”.

Chico, sem dúvidas, já aparenta estar cansado. Mas continua com força e é muito, muito necessário para o País. Ele, sem dúvidas, não causa mais a comoção social como quando cantava as canções de protesto. Mas, ainda assim, mostra que consegue influenciar quem o segue -- ainda que a força política tenha sido perdida nos últimos anos. É bom ver e escutar Chico Buarque. Principalmente em tempos tão conturbados como esse. E que o próximo show não demore mais seis anos.

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