• Pedro Balciunas

Resenha: Envolvente em sua narrativa, 'O Talentoso Ripley' é livro datado – e magistral

Atualizado: Jun 16







Quando foi publicado em 1955, O Talentoso Ripley provavelmente causou frisson não somente nos leitores mas também na sociedade. Além disso, foi obra extremamente inovadora não somente pelo fato de termos um sedutor vilão com protagonista, mas também pela própria história de sua criadora, Patricia Highsmith.

Adaptada para o cinema em duas ocasiões tamanha a genialidade de sua trama – foram O sol por testemunha, de 1959, com Alain Delon, e em 1999, com título homônimo ao livro, estrelando os jovenzinhos Matt Damon e Jude Law nos papeis principais – a história do vigarista que assume a identidade do melhor amigo para roubar-lhe (literalmente) a vida é um cânone da narrativa policial. No livro, porém, as nuances de Tom Ripley e Dickie Greanleaf são muito mais interessantes.

Ambos são personagens dúbios, mentalmente instáveis, oscilando entre o blasé e a fúria, a obsessão e o desprezo, o amor e a inveja. Ao abordar a paixão e, principalmente, a tensão sexual existente entre dois homens de forma sensual e sutil, mas sem deixar qualquer sombra de dúvida do que estava falando, Patricia Highsmith reforça a coragem tida quando escreveu Carol – obra também adaptada para o cinema em 2015, veja só – em 1952. Neste último, a história de amor se dá entre duas mulheres. Mas voltemos a Ripley. Todos os desdobramentos que ocorrem no livro, muitos deles macabros, ocorrem não só por Tom ser um psicopata, mas também por sua não-relação de amor com Dickie.

Apesar da narrativa elegante e inteligente que surpreende o leitor a cada ação tomada por Tom, O Talentoso Ripley é daqueles livros datados, que devem ser lidos como feitos para sua época. Hoje, com a pancada constante de postagens, fotos e flagras em redes sociais, seria simplesmente inimaginável – insustentável - que um homem se passasse por outro e não fosse descoberto em questão de segundos – ainda mais se este fosse um herdeiro milionário que provavelmente teria milhares de seguidores no Instagram e postaria bumerangues intensamente sobre sua vida no pequeno vilarejo italiano de Mongibello.

Terminado este, fico curioso pelas demais sequências com o nefasto e envolvente Tom – são quatro no total. É perturbador admitir que torcemos a todo momento para o antagonista de sua própria história. Fica a dica para o presente de aniversário!

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