Buscar
  • Pedro Balciunas

'Esta noite ou nunca' é literatura no melhor estilo de Marcos Rey


São Paulo, década de 1970. A ditadura militar (1964-1985) passava fita crepe, choques e pancadaria em qualquer um que insinuasse ser contra o regime de exceção, a moral e os supostos bons costumes que dominavam a época, mas liberava peitinhos e muita sacanagem nas telas do cinema. Não pense que esta introdução é um nariz de cera, leitor. Não é! O livro que vamos falar trata justamente da vida - um tanto fictícia, um tanto autobiográfica - de um roteirista de filmes de pornochanchada, gênero quase tão ignorado quanto Marcos Rey, autor do delicioso Esta noite ou nunca.

A história: um escritor premiado recém-saído da cadeia, preso por engano por subversão, passa a viver como roteirista de pornochanchada para se sustentar. Romance urbano cheio de reviravoltas, Esta noite ou nunca é, como os demais livros adultos de Rey, uma leitura leve e nostálgica, cheia de gírias da época e com uma descrição de São Paulo que impressiona. Conhecido pelo pseudônimo fraudulento de Willian Ken Taylor, nosso protagonista é um boêmio quase-malandro, um homem que busca a sobrevivência fazendo aquilo que sabe, mas incapaz de prejudicar qualquer pessoa. Rocambolesco a cada capítulo, o livro é praticamente o roteiro de um filme, uma sucessão de acontecimentos imagéticos que transformam o leitor em espectador da própria imaginação.

Destaco os capítulos que são as sinopses das pornochanchadas que o protagonista vende nos estúdios da Rua do Triumpho (hoje Triunfo). Adoraria assistir A Sereia do Guarujá e Piranha de Primeira Classe. Talvez hoje estivessem no mesmo hall de clássicos como A Dama do Lotação (Neville de Almeida) e A Super Fêmea (Aníbal Massaine Neto).

Está entre as coisas que não entendo, mas por que Marcos Rey, ou melhor, sua produção para o público adulto é quase desconhecida na atualidade? Clássicos infanto-juvenis da série Vagalume como O mistério do Cinco Estrelas, Um cadáver ouve rádio e O rapto do Garoto de Ouro saíram das mãos deste paulistano que vendeu mais cinco milhões de exemplares e escreveu mais de quarenta livros, roteiros de filmes e telenovelas – incluindo a adaptação de seu próprio livro, Memórias de um gigolô, para um minissérie em parceria com Walter George Durst. Acredito também que a Global, editora que publica os livros de Rey, poderia ser um pouco mais caprichosa com os projetos editoriais. Valorizaria o autor e a própria empresa.