Buscar
  • Amilton Pinheiro *

Festival de Brasília 2017: filmes misturam memórias e política nacional


A edição do Festival de Brasília deste ano está sendo regida pelo signo da urgência da questão racial, com debates acirrados, como foi o caso de Vazante, de Daniela Thomas, duramente criticado por uma pequena parcela do público, ofendidos pela abordagem da escravidão no Brasil do ponto de vista do branco. Por outro lado, Café com Canela, de Ary Rosa e Glenda Nicácio, diretores do Recôncavo da Bahia, que trata de personagens negros amorosos e engraçados, foi recebido laudatoriamente no debate, que não quis tocar nas fragilidades estéticas e técnica do filme.

Mas ontem à noite, 19, a questão racial não era o foco dos dois filmes exibidos da mostra competitiva, o curta Mamata, Marcus Curvelo e o documentário Construindo Pontes, de Heloisa Passos. Ambos os filmes abordaram a questão política no Brasil, como o golpe perpetrado pelo PMDB e partidos aliados, além de momentos do passado, com a ditadura de 1964.

Com seu humor escrachado, Mamata mostra um personagem sem rumo diante de um País paralisado por um golpe. Ele, o próprio diretor, passa as noites no seu apartamento lamentando para a namorada, que está morando nos Estados Unidos, sobre a falta de perspectiva que sua vida tomou diante desse estado de exceção. Ele perambula por uma Brasília, bêbedo e drogado (usa um ácido chamado Pedaladas), sem orientação, à mercê de um País em estado de perplexidade.

As referências que o curta usa para acentuar a sua revelia diante do golpe são hilariantes. Vai desde o pato da Fiesp, passando pela droga (as pedaladas da Dilma Rousseff) e culminando com o áudio da cantora Vanusa cantando o Hino Nacional, que alimentou meses a internet.

Partindo de sua experiência familiar, a diretora Heloisa Passos constrói o material do seu documentário Construindo Pontes, que aborda a relação conflituosa entre ela e seu pai (Álvaro Passos), um engenheiro que trabalhou nas construções de grandes obras durante a ditadura militar, que para ele foi uma revolução necessária para dar rumo ao País.

A diretora terce de forma original seu documentário, com base no material de imagens familiares e de algumas construções das obras daquele período. É nas conversas que ela vai filmando com o pai, que relata o que aquelas obras representaram para ele e para o país, que as diferenças entre eles vão sendo construídas.

O documentário Construindo Pontes é ao mesmo tempo uma metáfora para falar do País que nunca alcançou o rumo planejado, como um filme que trata de reconciliação entre pai e filha, que nunca se entenderam diante do assombro das mudanças políticas ocorridas na ditadura militar de 1964 e no golpe contra a presidenta Dilma Rousseff em 2016.

* Amilton Pinheiro é crítico de cinema, repórter de cultura e enviado especial do Esquina para o Festival de Brasília