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  • Amilton Pinheiro

Festival de Gramado: As imperfeições provocativas de 'Carro Rei'

Atualizado: Ago 21


O novo filme solo da cineasta pernambucana Renata Pinheiro, desde Amor, Plástico, Barulho (2013), Carro Rei, é uma obra bastante ambiciosa em vários aspectos. Na abordagem de um filme de gênero, que transita entre a ficção cientifica, o fantástico, o fabular e o drama social. E na concepção artística e técnica para dar conta de um universo tão pouco visitado no cinema brasileiro, a de uma distopia-agreste-cientifica (as comparações diretas ao filme Bacurau de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles e Divino Amor de Gabriel Mascaro são pertinentes).


A diretora Renata Pinheiro faz uma alegoria sobre o Brasil contemporâneo com a ascensão da extrema-direita e do autoritarismo vigente, por meio da história de uma família de classe média que vive de uma pequena frota de táxis em Caruaru, terra dos carros, de empresas de ferramentas e de pátios de sucatas de veículos.


Depois da morte da mãe, quando Uno ainda era criança, e já tinha o dom de escutar as vozes dos carros, o pai, Josenildo (Adélio Lima), expulsa o tio de Uno, Zé Macaco, seu desafeto, de casa. Agora um jovem, Uno (Luciano Pedro Jr.), entra em conflito com pai, que quer que ele assuma os negócios dele, mas ele quer cursar agronomia.


Uno sai de casa e vai viver numa pequena cooperativa de agricultura orgânica e familiar, e lá conhece Amora (Clara Pinheiro), por quem nutre um sentimento, que não se concretiza. Por conta de uma legislação da Prefeitura, que quer tirar os carros com mais de quinze anos de fabricação da praça, o que afetará drasticamente os negócios de seu Josenildo, ele tem um ataque cardíaco, mas sobrevive, o que faz com que Uno volte para casa, trazendo com ele, o tio, Zé Macaco, que foi viver num pátio de sucatas velhas de carros da família, depois da morte da mãe de Uno, sua irmã.

A passagem de um drama familiar para os dispositivos de fábula e de ficção cientifica, vão dar contornos surpreendentes a história de Carro Rei, quando Uno passa a falar com mais frequência com os carros que são ameaçados de virarem sucatas. E quando Zé Macaco, um exímio mecânico de veículos, começa a reconstituir esses carros em máquinas quase novas e pensantes, entre elas, o “Carro Rei”, que quer dominar o mundo e eliminar quem atravessar o caminho deles, mesmo que seja o próprio Uno.


Nesse mundo em que a tecnologia ao invés de melhorar a vida das pessoas e das coisas, transformou tudo no monte de engrenagens sucateadas, na desumanização do homem e na vigência de um estado totalitário, como vimos em filmes como Mad Max e O Exterminador do Futuro, são as mesmas premissas desenvolvidas com êxito em Carro Rei.


Já distopia-agreste-científica tão bem construída em filmes como Bacurau e Divino Amor, em que os subtramas sedimentavam e potencializavam a história contada, aparece em Carro Rei com os seus núcleos paralelos bastante fragilizados, como, por exemplo, a da cooperativa agrícola, com suas questões ambientais didáticas, discursivas e professorais. Mesmo o drama familiar de Uno, é composto de forma frágil e sem aprofundamento, tanto é que os conflitos entre ele e o pai são deixados de lado no decorrer da história, sendo uma das pontas soltas que o filme não consegue desenvolver de forma satisfatória.


Esses núcleos carecem de atuações convincentes, o que leva o espectador a não embarcar nessas histórias, deixando todas as atenções para os acontecimentos em torno de Zé Macaco e da construção do seu mundo distópico, opressor e desumanizado, graças a composição sem medo de Matheus Nachtergaele que se joga no abismo desse homem meio símio, meio máquina, meio louco. “O Zé Macaco é esse tipo de personagem que te chega como um susto, e rapidamente toma tua intuição e toma teu desejo”, disse o ator em entrevista ao Esquina.


Entrevista: Matheus Nachtergaele


Esquina da Cultura: Sendo um ator de composições viscerais e marcantes, quais os caminhos que você tomou para compor Zé Macaco?

Matheus Nachtergaele: O Zé Macaco é esse tipo de personagem que te chega como um susto, e rapidamente toma tua intuição e toma teu desejo. O filme tem muitas camadas de discurso, é um filme altamente político e ao mesmo tempo muito fabuloso, no sentido da fabula mesmo. Portanto, tive muita liberdade de criação. O apelido Zé Macaco já me remeteu para procurar uma composição simiesca. A Renata Pinheiro topou esse caminho. E depois essa tecnologização da humanidade foi entrando para dentro da composição cada vez mais, com tudo que era mecânico, automático, cyber, etc, transformando esse macaco, num macaco cibernético, nesse homem cheio de prótese, que é o homem que a gente vem formando agora, nessa pós-modernidade, nesse contemporâneo. Então, tudo isso, foi muito rico, muito arriscado. Fiz aula de pole dance, aula de mecânica, aprendi a montar e desmontar um motor de carro. Assistir muito [ao filme] A Guerra do Fogo, de Jean-Jacques Annaud, para olhar os movimentos dos atores, imitando Neandertais. E fui brincar, fui brincar, fui brincar, fui sofrer. Zé Macaco é um homem que sofreu bullying, autodidata, que ao se tornar poderoso, ao invés de se tornar generoso, se torna um fascista. Então, foi muito rico o trabalho. E, claro, não pude ter medo do patético, desse risco, porque era arriscado, é um macaco, um homem que é um macaco. A feitura do personagem foi bonita, assim como o acompanhamento da Renata. Procurei aproveitar a abertura que o filme dava. É uma fábula, é um conto de fada pós-tecnológico, ultracapitalista, farmopornográfico, cibernético-miliciano (risos).


Esquina: Como você enxerga Zé Macaco dentro da galeria de personagens que você já fez?

Matheus: Dentro dessa galeria, vejo Zé Macaco como mais um desses [personagens] onde, onde, mesmo, como lugar, onde eu procuro entender quem nós somos no Brasil com “s”, no Brasil profundo. Nesse lugar que é tão cheio de futuro e ao mesmo tempo tão sucateado. Acho que ele pode parecer surpreendente, em alguns aspectos, para quem acompanha meu trabalho. Por outro lado, ele é um desenvolvimento natural do meu trabalho de corpo, de sotaque, do meu envolvimento com o cinema pernambucano. Vendo o filme ontem, durante a exibição do Canal Brasil, tive medo de como as pessoas conseguiriam ou não reagir a ele. Achei um filme muito cheio de virtudes definitivas e erros crassos, como é um Brasil, Me pareceu que é um filme que vai ficar eternizado, vai ficar como um bom retrato do cinema brasileiro de agora de 2021. Muito vivo na coragem de conversar com o Brasil e com o que a gente pode fazer com o cinema, muito vivo o filme.


Esquina: Você definiu o filme de Renata Pinheiro como uma ficção cientifica no agreste, com seus elementos marcados na geografia e na topologia do povo local. Que Brasil é esse que surge de Carro Rei, para além da distopia que ele carrega?

Matheus: O filme Carro Rei é uma fábula sobre quem nós estamos nos tornando enquanto nação. Na verdade, uma fábula muito bem escrita e muito profunda nesse sentido. Seres que precocemente são tecnologizados, que de alguma forma foram abandonados no lugar que era cheio de futuros, mas que não pôde evoluir por causa de interesses econômicos. A chegada de toda tecnologia causa uma involução, uma sujeita, uma poluição, um sucateamento. É um retrato fantasioso, mas muito claro sobre o Brasil, um presságio e um sonho ruim. E os sonhos são sempre uma base muito verdadeira do inconsciente, assim como os contos de fadas e as fábulas. Eu gosto demais do [filme] Carro Rei.


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