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  • Amilton Pinheiro

Mostra de Cinema de Gostoso: Preservar para conhecer e se reconhecer


No início dos anos 1990, o cinema brasileiro estava vivendo um de seus piores momentos com a extinção da Embrafilme, a produtora e distribuidora estatal de filmes, no começo do governo de Fernando Collor de Mello. A produção de longas brasileiros chegou a quase zerar nos três primeiros anos.


Enquanto isso, na cidade de São Paulo, era fundada a Cinemateca Brasileira de forma embrionária nos anos 1940, pelo pesquisador e professor Paulo Emílio Salles Gomes, entre outros – considerada a maior da América Latina e uma das mais importantes do mundo. Ela viria juntar o seu acervo, espalhado por alguns prédios e casas da cidade de São Paulo, num único endereço, a do Antigo Matadouro Municipal, localizado na Vila Clementina.

É sobre essa transferência que o documentário de curta-metragem Cinemateca Brasileira (1993), de Ozualdo R. Candeias (1922-2007) se debruça. O filme faz parte da Mostra Acervo, da 7ª edição da Mostra de Cinema de Gostoso, que traz também seis longas da filmografia brasileira, escolhidos pelos realizadores da Mostra Competitiva.

“Optamos por centrar o debate a respeito da memória, tanto no que diz respeito à preservação audiovisual brasileira, quanto à aspectos mais subjetivos e pessoais. Que memórias carregaremos de todo esse isolamento e privação de experiências a que estamos sujeitos? Como isso será refletido nos filmes que ainda virão? Onde esses filmes ficarão armazenados?”, explica Eugênio Puppo, um dos diretores e curadores.

Lugar de guardar e mostrar

Com um tom disfarçadamente institucional, Cinemateca Brasileira quer ser didático e mostrar o que é uma cinemateca para o espectador. Mas, em se tratando de Candeias, o filme ganha outras perspectivas e olhares mais aguçados e críticos. A começar pelo primeiro e último plano do curta, que começa numa das vias expressas de São Paulo e termina numa beira de estrada.

Assistir ao filme é constatar que a negligência e descaso do País com a preservação da memória é desde sempre e faz parte da mentalidade dos governos e da iniciativa privada. Salta aos olhos a precariedade de armazenamento de inúmeros rolos de filmes brasileiros em depósitos e salas. Ao mesmo tempo, o espectador toma conhecimento de duas informações extremamente importantes: que grande parte dos filmes feitos na primeira metade do século 20 se perdeu, e de como é rico o acervo da Cinemateca Brasileira.

Essa transitoriedade e fragilidade no cuidado da nossa memória dizem muito sobre a atual crise por que passa a Cinemateca Brasileira. E estão presentes no documentário de Candeias. “A Cinemateca Brasileira passa atualmente por uma das maiores crises de sua história e não temos nenhuma perspectiva concreta de que a situação irá melhorar tão cedo”, entende Puppo.


Filmes-Memórias

A Mostra Acervo é composta também seis longas escolhidos pelos realizadores das produções da Mostra Nacional. Segundo Puppo, já que o evento não seria presencial, com a participação dos diretores nos debates, a curadoria sugeriu que cada um escolhesse um longa importante na sua formação.

A ideia ampliou ainda mais o recorte curatorial sobre a memória e preservação, já que todos os longas escolhidos tem pelo menos uma cópia depositada na Cinemateca Brasileira. Além disso, os internautas que estão vendo a Mostra de Cinema de Gostoso online poderão ver algumas grandes produções da filmografia brasileira que foram restauradas para serem exibidas no streaming.

No cardápio, filmes clássicos como Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos (1963) e São Bernardo, de Leon Hirszman (1972), ambos baseados em obras homônimas de Graciliano Ramos. Além de Copacabana Mon Amour, de Rogério Sganzerla (1970). Além de filmes mais recentes como Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky (2000) e Martírio, de Vicent Carelli (2016). Completa a Mostra Acervo de filmes escolhidos pelos realizadores da Mostra Nacional, o raro Claro, de Glauber Rocha (1975), um dos trabalhos mais anárquicos e instigantes do cineasta baiano, realizado no seu exílio em Roma na Itália.


Interessante observar que Claro foi objeto para o documentário de César Meneghetti, Glauber, Claro, lançado recentemente no Canal Curta!, que passou pela Mostra Internacional de Cinema em São Paulo em outubro, eleito o Melhor Filme da Crítica, e foi o grande vencedor da 15ª edição do Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro, que aconteceu em João Pessoa em dezembro.

Sessões Especiais

Completando o recorte sobre a memória e a preservação do audiovisual brasileiro, a curadoria traz duas Sessões Especiais de grande importância, por se tratar de filmes que ainda não foram lançados em streaming. Na Sessão Xanadu, dois longas episódicos que fizeram parte da Xanadu Produções Cinematográficas: As Libertinas – Três Histórias de Amor e Sexo, de Carlos Reichenbach, João Callegaro e Antônio Lima (1968) e Audácia a Fúria do Desejo, de Carlos Reichenbach e Antônio Lima (1969).


A Sessão Boi de Prata traz o filme Boi de Prata, de Carlos Augusto da Costa Ribeiro Jr. (1981). E na Sessão Cinelimite, três produções de 1968: A Vida Provisória, de Maurício Gomes Leite, O Bravo Guerreiro, de Gustavo Dahl e Desesperato, de Sérgio Bernardes Filho. Oportunidade rara para assistir produções em streaming de obras de difícil acesso.

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