• Matheus Mans

Mostra em São Paulo traz obras do renascentista Rafael


Ainda que a entrada do Centro Cultural Fiesp pareça uma obra surrealista, com sua fachada inclinada e os gigantescos sapos infláveis em protesto aos impostos pagos por brasileiros, dentro dele há um verdadeiro universo renascentista. Afinal, desde a última quinta, 19, obras do artista italiano Rafael Sanzio e de seus seguidores tomaram as paredes do local com a exposição Rafael e a Definição da Beleza – Da Divina Proporção à Graça.

Se antecipando às celebrações dos 500 anos de Rafael, em 2020, a exposição traz obras do mestre do Renascimento de diversas coleções italianas e nacionais, como da Fundação Eva Klabin e da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Algumas das obras expostas, que variam entre pinturas, gravuras, esculturas, tapeçaria, livros e objetos raros, são inéditas no Brasil -- em nenhum outro momento foram expostas no País.

Para conseguir organizar objetos de tanto impacto e, principalmente, conseguir traçar um bom panorama sobre a vida de Rafael, um dos mais importantes artistas do movimento renascentista do século XVI, a exposição se dividiu em oito seções. A que recebe o público, com paredes bordôs, é A Divina Proporção. Nela, são destacadas as medidas exatas que orientavam a concepção da beleza à luz dos estudos tanto matemáticos quanto artísticos. É aqui, também, que há espaço ao mestre de Rafael, Pietro Perugino.

Depois há ainda Virtudes da Imitação, que mostra como o conceito da imitação foi fundamental como sistema moral e ético no Renascimento; Idade de Ouro, onde há uma impressionante representação em tamanho real do afresco de Rafael que decora a Stanza della Segnatura, no Vaticano; e Uma nova beleza, que marca a ascensão da substituição da objetividade do pensamento matemático pela subjetividade do olhar artístico.

É nesta última, aliás, que o visitante irá se deparar com as famosas Madonas com meninos, representantes da típica graça rafaelesca, e com La Perla di Modena, pequeno óleo sobre tela de Rafael, que revelando o sublime existente nos traços do artista. É o ápice da exposição, com quadros vindos diretamente de museus italianos.

"Não se trata mais da beleza exata, de proporções matemáticas, noções que haviam orientado o século anterior", afirma a curadora Elisa Byington, referindo-se ao pensamento ligado à divina proporção. "A nova beleza é contaminada pelo julgamento subjetivo que avalia a doce expressão dos sentimentos, o colorido harmonioso, a naturalidade da articulação entre as figuras, a variedade das fisionomias e a elegância dos gestos."

Passando para a segunda metade da exposição, encontra-se a seção Invenção e Execução, abordando a importância do ateliê na produção e difusão das obras e da fama do artista e o impacto de Rafael em seus seguidores. Nela é interessante observar a influência da obra de Rafael sobre as outras pessoas e como há um movimento antropofágico dentro do próprio Renascimento. Instrumentos da Fama, enquanto isso, mostra a importância de gravuras num período anterior à fotografia. É a seção mais apática.

Para a reportagem do Esquina, que visitou a mostra durante a abertura, porém, a melhor seção é a penúltima, Fortuna das Tapeçarias. Grandiosa e exuberante, ela demonstra a versatilidade da arte de Rafael e a diversificação das linguagens artísticas de sua obra. Na mostra, encontram-se a tapeçaria com a cena da famosa Pesca Milagrosa, da série dos Atos dos Apóstolos, destinada a cobrir as paredes inferiores da Capela Sistina.

Por fim, o visitante encontra o núcleo A Difusão da Maneira, que aborda a disseminação do estilo amadurecido por Rafael e estimulado pela presença de numerosos artistas em Roma. Nesta seção há tanto gravuras realizadas sob a inspiração de seus modelos, quanto três pinturas que sofreram influência do seu estilo, além do cartão para tapeçaria da coleção da Fundação Eva Klabin com o tema da Idade de Ouro, que se baseava em uma tapeçaria realizada por Rafael 100 anos antes. É deslumbrante de ver.

Ainda que a exposição seja de rápida circulação, podendo ser feita em 15 minutos, é mais interessante que o visitante pare em cada objeto, cada explicação, cada detalhamento. Muitas obras -- principalmente as gravuras e livros -- podem acabar passando batido, mas são, por vezes, mais poderosas do que pinturas e esculturas. Vale a pena ir com calma para o Centro Cultural Fiesp, então, para apreciar cada detalhe.

Rafael e a Definição da Beleza – Da Divina Proporção à Graça ficará aberta até 16 de dezembro e tem entrada gratuita. O endereço é Avenida Paulista, 1.313, e o funcionamento é de 3ª a sábado, das 10h às 22h, e domingo das 10h às 20h. Não funciona às segundas.

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